A nota que você nunca vai ver

Já que a nota ninguém vai ver e ter mesmo, podia botar 1 kg de alcatra na estampa. Porque fica coerente. Ninguém tem mais 1 kg de alcatra

atualizado 31/07/2020 8:46

Ilustração para coluna do Anderson França "A nota que você não vai ver" Gui Prímola/Metrópoles

A nota de R$ 200 virou o assunto do dia.
No mesmo dia em que Michelle Bolsonaro confirmou Covid-19.
No mesmo dia em Tóffoli propõe quarentena de oito anos pra JUÍZES QUE SAEM DA MAGISTRATURA E QUEREM SE CANDIDATAR.

Zero indireta, né, Moro.

O que eu não entendo é o que move um sujeito que estudou a vida inteira pra ser advogado, fez prova da OAB, fez escola da magistratura, fez concurso, uma, duas, cinco vezes, passa pra juiz, carreira VITALÍCIA, meu irmão, salário nababesco, e o cara larga TUDO pra virar vereador.

Expliquem essa, ateus.

No caso de Moro, o salário de presidente é maior que de vereador. Mas fica pareado ali com o de juiz, com benefícios similares, inclusive.

É o poder, estúpido.
Moro com a caneta pode pintar as caneca.
Tem a indústria na mão, o exército, a Polícia Federal, orçamento de um país do tamanho de um continente. Muitos interesses no jogo. E aquela subserviência aos Estados Unidos. Nisso, moro e Bolsonaro são absolutamente iguais. Ambos são capachos do Departamento de Estado Americano.

Daí aparece o lobo-guará.

Chrysocyon brachyurus, esse maroto marrom. Podia ser o vira-lata caramelo, muito mais popular e acessível. Mas não. Botaram o lobo-guará, porque em Mato Grosso diz que o lobo-guará dá sorte.

O que, convenhamos, esse governo meio que precisa. Porque nem ciência, nem Deus tão ajudando. Então vamo na purrinha, ou no lobo-guará.

Mas se o lobo-guará pudesse escolher entrava pro governo essa hora?
Teich saiu, Wizard saiu na surdina. O lobo, se pudesse falar, ao ser convidado a ser a nova nota do governo Bolsonaro, diria exatamente o quê?

E, na internet, milhares de memes. Disseram que a nota ia se chamar queirozão, eu acho que ele não vale mais que uma moeda de 25 centavos. É muito pra essa gente virar nome de praça em Icó.

Fato é que ninguém vai ver essa nota. Se a de cem ninguém vê, quem dirá duzentos. Isso é uma gincana? Agora que o cabra recebeu um auxílio emergencial e pegou numa nota de cem, que pensou em não gastar, mas deixar num quadro pra enfeitar a sala, vem os caras e criam a de duzentos.

Pra um país que viveu com a hiperinflação, isso lembra os tempos em que a nota era produzida, e um mês depois o Banco Central carimbava na nota outro valor. Tipo Zimbábue, que fez a maior nota do mundo, de CEM TRILHÕES DE DÓLARES. Economistas dizem que não se trata disso, mas de uma coisa chamada entesouramento, um comportamento geral de guardar dinheiro em casa. Tia Nadia, que dinheiro? Vai entesourar quem tem franquia da Kopenhagen na Barra, desempregado só entesoura boleto.

Já que a nota ninguém vai ver e ter mesmo, podia botar um quilo de alcatra na estampa. Porque fica coerente. Ninguém tem mais um quilo de alcatra. E se quiser, vai precisar de uma nota de 200.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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