Wikie e Keijo: destino de últimas orcas em cativeiro ainda é incerto
Parque fechou após proibição de shows e mantém duas orcas em tanques enquanto especialistas discutem riscos e alternativas para o futuro
atualizado
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O Marineland Antibes, no sul da França, por anos foi um dos principais destinos para quem queria ver de perto grandes animais marinhos em exibição. Entre as atrações, as orcas estavam no centro dos espetáculos e concentravam boa parte do interesse do público. Hoje, com os portões fechados e os espetáculos proibidos, duas delas permanecem no local enquanto autoridades e especialistas tentam definir o que fazer com os animais.
Wikie, de cerca de 25 anos, e o filho Keijo, de 13, nasceram em cativeiro e nunca viveram no oceano. O parque encerrou as atividades em janeiro de 2025, após mudanças na legislação francesa que proibiram apresentações com cetáceos. Sem os shows, que respondiam por grande parte da visitação, o modelo de negócio deixou de se sustentar.
Mesmo fechado, o espaço ainda mantém funcionários responsáveis pelos cuidados diários dos animais. Ainda assim, cresce a preocupação com a estrutura dos tanques, que já apresentam sinais de desgaste, o que aumenta a pressão por uma solução definitiva.
A discussão sobre o destino das orcas passa, primeiro, pelas condições em que elas viveram até agora. Em ambiente natural, esses animais percorrem longas distâncias e possuem uma rotina marcada por estímulos constantes, o que não se reproduz em cativeiro.
Segundo a professora de medicina veterinária Eleonora Dávila Erbesdobler, da UNICEPLAC, o confinamento traz uma série de consequências físicas e comportamentais.
A limitação de espaço afeta diretamente o condicionamento do corpo e pode levar a problemas musculares e articulares, além de infecções e desgaste dentário.
“É comum observar movimentos repetitivos, apatia e até agressividade entre os indivíduos. São sinais de que o ambiente não atende às necessidades desses animais”, explica.
Essas mudanças refletem um quadro de estresse contínuo. Orcas são altamente sociais e dependem de interações complexas, o que se perde em ambientes artificiais e reduzidos.
Sinais de estresse e bem-estar comprometido
Além dos efeitos físicos, o comportamento das orcas pode indicar sofrimento psicológico. Permanecer imóvel por longos períodos, nadar em círculos ou demonstrar pouco interesse pelo ambiente são alguns dos sinais observados.
Eleonora afirma que esses padrões são frequentemente associados à falta de estímulos e ao isolamento. Em alguns casos, surgem comportamentos compulsivos ou respostas exageradas a estímulos simples, o que reforça a ideia de comprometimento do bem-estar.
Esse cenário ajuda a explicar por que manter os animais no parque, mesmo com cuidados básicos garantidos, é visto apenas como uma solução temporária.

Reintrodução na natureza divide especialistas
Uma das possibilidades levantadas seria a soltura das orcas no oceano. Na prática, essa alternativa é considerada extremamente complexa, principalmente porque Wikie e Keijo nunca tiveram contato com o ambiente natural.
O biólogo marinho Eduardo Bessa, professor da Universidade de Brasília (UnB), de Planaltina, avalia que a adaptação seria improvável.
“São animais que não aprenderam a se alimentar sozinhos nem a lidar com as condições do mar. Existe risco de não sobreviverem”, afirma.
Ele explica que, mesmo em casos de animais que já viveram na natureza, o processo de reintrodução é longo e incerto. Para indivíduos nascidos em cativeiro, os desafios são ainda maiores, envolvendo desde questões de saúde até a falta de preparo físico. Além disso, há riscos relacionados ao próprio ambiente, como exposição a doenças e dificuldades para encontrar alimento.
Santuários surgem como alternativa mais viável
Diante das limitações, os santuários marinhos aparecem como a opção mais discutida. Esses espaços, geralmente em áreas costeiras delimitadas, permitem maior contato com o ambiente natural sem abrir mão de algum nível de cuidado humano.
Nesses locais, os animais passam a viver em água do mar, com mais espaço e estímulos variados. Isso pode favorecer a recuperação do condicionamento físico e reduzir sinais de estresse.
Apesar das vantagens, a implementação não é simples. Custos elevados, escolha de áreas adequadas e necessidade de adaptação gradual são alguns dos desafios envolvidos.
Para Bessa, ainda assim, essa é a alternativa mais realista. “O que dá para fazer hoje é oferecer uma vida com mais qualidade, que se aproxime do ambiente natural, mesmo que o animal ainda dependa de cuidados”, diz.
A definição do destino de Wikie e Keijo depende de uma série de fatores, que vão desde as condições de saúde até as características do local que poderia recebê-las.
