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Ciência

Tábuas de 3 mil anos são descobertas em região citada na Bíblia

Achado revela que três governantes ocuparam o trono por períodos curtos e ficaram de fora da lista oficial de reis

07/08/2026 17:54, atualizado 07/08/2026 17:55
Reprodução/ Trustees of the British Museum
Foto colorida de peças antigas achadas durante escavação - Metrópoles.

Na antiga Assíria, que ficava ao norte da Mesopotâmia, três reis que governaram há quase 3 mil anos ficaram de fora da principal lista usada para reconstruir a história dos reinados. A descoberta foi feita após pesquisadores analisarem novamente inscrições e documentos cuneiformes conhecidos há décadas.

O estudo, publicado no Journal of Cuneiform Studies, foi conduzido pelos pesquisadores Alexander Johannes Edmonds, da Universidade de Münster, na Alemanha, e Eckart Frahm, da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

As evidências apontam para três governantes: Aššur-uballiṭ, Tiglath-pileser e Shalmaneser. Todos teriam ocupado o trono por períodos curtos, entre os séculos 10 e 8 a.C., antes de serem depostos. Os pesquisadores também encontraram sinais de que pelo menos dois tiveram referências apagadas ou alteradas posteriormente.

Uma lista que não contava toda a história

Durante mais de um século, pesquisadores consideraram que a sequência de reis do período Neoassírio, aproximadamente entre 1000 e 609 a.C., estava bem estabelecida.

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Uma das principais fontes para reconstruir a história é a Lista de Reis Assírios, conhecida por meio de antigas tábuas de argila escritas em cuneiforme. O documento apresenta os governantes em uma sequência aparentemente contínua.

A nova pesquisa mostra, porém, que a lista não incluía necessariamente todos que chegaram ao trono. Segundo Edmonds e Frahm, ela apresenta uma versão idealizada da monarquia, deixando de fora governantes que tiveram reinados curtos ou terminaram derrotados.


O que o estudo descobriu

  • Três novos reis: Aššur-uballiṭ, Tiglath-pileser e Shalmaneser que não aparecem na tradicional Lista de Reis Assírios.
  • Reinados muito curtos: cada um teria governado por menos de dois anos.
  • Não eram apenas invasores: as evidências indicam que pertenciam à família real assíria e receberam apoio de integrantes da elite.
  • Registros foram alterados: os pesquisadores encontraram evidências de tentativas de retirar pelo menos dois dos governantes da memória histórica.
  • A cronologia permanece: a descoberta não muda a cronologia assíria estabelecida a partir de 911 a.C., mas indica que reis anteriores também podem ter sido omitidos.

Uma das evidências mais importantes envolve Tiglath-pileser. A pista veio de uma tábua de argila encontrada em Nínive, antiga cidade localizada no atual Iraque e mencionada na Bíblia.

O objeto, hoje no Museu Britânico, registra uma concessão de terras feita por um rei e é datado de 762 a.C.. A tábua havia sido publicada pela primeira vez há mais de 125 anos, mas sua interpretação criava um problema: os reis aos quais o documento havia sido associado anteriormente não governavam naquele ano.

Ao analisar novamente a escrita cuneiforme, Frahm concluiu que a concessão provavelmente havia sido emitida por outro Tiglath-pileser, até então desconhecido.

O estudo relaciona o governante a uma rebelião iniciada em 763 a.C., durante o reinado de Aššur-dān III. Naquele ano ocorreu um eclipse solar, fenômeno que poderia ser interpretado pelos assírios como sinal da queda de um rei.

Registros também indicam uma epidemia em 765 a.C., período de crescente instabilidade. O novo Tiglath-pileser teria tomado o poder na cidade de Aššur, mas acabou derrotado pelas forças de Aššur-dān III.

Outros dois governantes aparecem nas evidências

O segundo rei identificado foi Shalmaneser, que provavelmente assumiu o trono no fim de 747 a.C. e perdeu o poder para Tiglath-pileser III pouco mais de um ano depois, em 745 a.C.

Uma das pistas está em uma antiga estela – monumento de pedra em forma de coluna. O nome de Shalmaneser foi substituído pelo de Tiglath-pileser III, mas permaneceu parcialmente visível, permitindo que os pesquisadores identificassem a alteração.

O terceiro é Aššur-uballiṭ, que teria governado por um curto período por volta de 913 a 912 a.C. Seu nome aparece em uma inscrição relacionada à restauração de um recipiente ritual de prata dedicado ao deus Aššur. O estudo propõe que ele perdeu o trono para Adad-nārārī II.

As novas evidências mudam a forma como os pesquisadores enxergam a política da antiga Assíria. Em vez de uma sucessão relativamente organizada de reis, muitas vezes de pai para filho, o período também foi marcado por disputas dentro da própria família real, rebeliões e deposições.

Os três governantes acabaram fora da Lista de Reis Assírios. Para os autores, o documento não deve mais ser entendido como uma relação completa de todos os reis, mas como uma seleção dos governantes que permaneceram no poder e foram reconhecidos pelos responsáveis por organizar a história oficial.

A descoberta não altera a cronologia assíria estabelecida a partir de 911 a.C. No entanto, levanta uma nova possibilidade: outros reis de curta duração podem ter existido em períodos anteriores e também ficado de fora dos registros conhecidos.