“Retrocesso”: avalia astrônoma sobre falta de mulheres na Artemis III
Apesar dos tripulantes designados serem considerados capacitados, a escolha da Nasa para a próxima fase da Artemis III gerou polêmica

No começo do mês de junho, a Nasa anunciou a equipe que fará parte da continuidade do programa Artemis. A terceira etapa da missão será composta pelos astronautas Andre Douglas, Francisco Rubio, Randy Bresnik, da Nasa, e Luca Parmitano, da Agência Espacial Europeia (ESA). A próxima fase irá simular, em órbita terrestre, o encontro e o acoplamento da cápsula Órion (a espaçonave onde ficam os astronautas) com os módulos de pouso lunar da Starship, da SpaceX, e Blue Moon, da Blue Origin.
Apesar de os tripulantes designados serem considerados capacitados, a escolha da agência norte-americana gerou críticas pela falta de representatividade feminina. É possível encontrar vários comentários questionando a ausência de mulheres na equipe, na publicação feita pela Nasa com o anúncio da tripulação.
Na missão anterior, ao contrário da equipe atual, o público feminino foi representado pela astronauta Christina Koch, da Nasa – o restante da equipe era composto por três homens. Segundo a astrofísica Karin Delmestre, inicialmente, a expectativa era que o programa ajudaria a ampliar a diversidade na exploração espacial, o que não foi cumprido na Artemis III.
“Isso representa um retrocesso simbólico e mostra que a luta por equidade ainda está longe de terminar. O fato de mulheres terem participado ou sido incluídas em outras missões não significa que o problema esteja resolvido. A decisão atual passa a impressão de que a prioridade de ampliar a participação feminina nesse tipo de iniciativa deixou de existir ou perdeu força”, ressalta a especialista, que é pesquisadora do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).
Por outro lado, o principal argumento de quem defende a ausência das mulheres na etapa atual é que elas estão sendo reservadas para participar das missões seguintes, como a da Artemis IV, que pretende pousar em solo lunar.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Realmente, eles poderiam ter feito um esforço para incluir uma mulher nesta missão. Mas, tenho praticamente certeza de que a Artemis IV contará com uma mulher, que poderá se tornar a primeira a pisar na Lua”, avalia a astrofísica Thaisa Bergmann, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Quais são os critérios para ser selecionado para missões da Nasa
Para serem escolhidos a participar das missões, os astronautas passam por uma seleção rigorosa e precisam se encaixar em pré-requisitos rígidos. Entre os principais, estão:
- Ser cidadão norte-americano;
- Ter formação avançada em áreas como engenharia, matemática, ciência ou computação;
- Atender exigências físicas específicas;
- Em funções especializadas, é necessário experiência técnica, como ter mais de mil horas de voo, como no caso de pilotos por exemplo;
- Após a inscrição, os astronautas passam por uma pré-seleção, entrevistas, treinamentos especializados e avaliações contínuas;
- Depois de serem aprovados em todas as etapas, eles se tornam aptos a serem escolhidos.
Para Karin, a discussão não é sobre a capacidade da tripulação escolhida, visto que são altamente qualificados e passaram por todas as etapas de seleção. “A questão levantada é que também existem mulheres capacitadas que poderiam estar sendo consideradas”, aponta a cientista apoiada pelo Instituto Serrapilheira.
“Além disso, o contexto político atual é bastante diferente daquele existente quando as missões Artemis foram originalmente concebidas, o que gera preocupação sobre como esse cenário pode estar influenciando decisões desse tipo”, acrescenta.
Debate é necessário para garantir representatividade feminina na Artemis
Na avaliação dos especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o debate não é prejudicial para os trabalhos da missão. Na verdade, a discussão é essencial para manter viva a discussão sobre a participação de mulheres na exploração espacial, visto que a desigualdade entre homens e mulheres na área ainda é considerável.
“O fato de nenhuma mulher ter sido escolhida transmite uma mensagem simbólica importante. Uma missão desse porte poderia funcionar como um poderoso instrumento para incentivar mais mulheres a ingressarem na ciência – isso não aconteceu, o que é lamentável”, diz o pesquisador de Ciências Planetárias do Observatório Nacional, Gustavo Madeira.
Karin reforça que a participação de mulheres é essencial para inspirar crianças e jovens no futuro a seguirem a carreira e tornar a presença feminina cada vez maior na área. “Quando um grupo altamente visível é composto exclusivamente por homens, a mensagem transmitida para muitas meninas pode ser a de que aquele não é um espaço para elas. Isso tem impacto sobre quem decide seguir uma carreira científica ou tecnológica”, afirma.



