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Ciência

“Retrocesso”: avalia astrônoma sobre falta de mulheres na Artemis III

Apesar dos tripulantes designados serem considerados capacitados, a escolha da Nasa para a próxima fase da Artemis III gerou polêmica

21/06/2026 02:00
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Divulgação/Nasa/Bill Stafford
Imagem colorida da tripulação da missão Artemis III - Metrópoles

No começo do mês de junho, a Nasa anunciou a equipe que fará parte da continuidade do programa Artemis. A terceira etapa da missão será composta pelos astronautas Andre Douglas, Francisco Rubio, Randy Bresnik, da Nasa, e Luca Parmitano, da Agência Espacial Europeia (ESA). A próxima fase irá simular, em órbita terrestre, o encontro e o acoplamento da cápsula Órion (a espaçonave onde ficam os astronautas) com os módulos de pouso lunar da Starship, da SpaceX, e Blue Moon, da Blue Origin.

Apesar de os tripulantes designados serem considerados capacitados, a escolha da agência norte-americana gerou críticas pela falta de representatividade feminina. É possível encontrar vários comentários questionando a ausência de mulheres na equipe, na publicação feita pela Nasa com o anúncio da tripulação.

Na missão anterior, ao contrário da equipe atual, o público feminino foi representado pela astronauta Christina Koch, da Nasa – o restante da equipe era composto por três homens. Segundo a astrofísica Karin Delmestre, inicialmente, a expectativa era que o programa ajudaria a ampliar a diversidade na exploração espacial, o que não foi cumprido na Artemis III.

“Isso representa um retrocesso simbólico e mostra que a luta por equidade ainda está longe de terminar. O fato de mulheres terem participado ou sido incluídas em outras missões não significa que o problema esteja resolvido. A decisão atual passa a impressão de que a prioridade de ampliar a participação feminina nesse tipo de iniciativa deixou de existir ou perdeu força”, ressalta a especialista, que é pesquisadora do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Por outro lado, o principal argumento de quem defende a ausência das mulheres na etapa atual é que elas estão sendo reservadas para participar das missões seguintes, como a da Artemis IV, que pretende pousar em solo lunar.

“Realmente, eles poderiam ter feito um esforço para incluir uma mulher nesta missão. Mas, tenho praticamente certeza de que a Artemis IV contará com uma mulher, que poderá se tornar a primeira a pisar na Lua”, avalia a astrofísica Thaisa Bergmann, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro da Academia Brasileira de Ciências.


Quais são os critérios para ser selecionado para missões da Nasa

Para serem escolhidos a participar das missões, os astronautas passam por uma seleção rigorosa e precisam se encaixar em pré-requisitos rígidos. Entre os principais, estão:

  • Ser cidadão norte-americano;
  • Ter formação avançada em áreas como engenharia, matemática, ciência ou computação;
  • Atender exigências físicas específicas;
  • Em funções especializadas, é necessário experiência técnica, como ter mais de mil horas de voo, como no caso de pilotos por exemplo;
  • Após a inscrição, os astronautas passam por uma pré-seleção, entrevistas, treinamentos especializados e avaliações contínuas;
  • Depois de serem aprovados em todas as etapas, eles se tornam aptos a serem escolhidos.

Para Karin, a discussão não é sobre a capacidade da tripulação escolhida, visto que são altamente qualificados e passaram por todas as etapas de seleção. “A questão levantada é que também existem mulheres capacitadas que poderiam estar sendo consideradas”, aponta a cientista apoiada pelo Instituto Serapilheira.

“Além disso, o contexto político atual é bastante diferente daquele existente quando as missões Artemis foram originalmente concebidas, o que gera preocupação sobre como esse cenário pode estar influenciando decisões desse tipo”, acrescenta.

Debate é necessário para garantir representatividade feminina na Artemis

Na avaliação dos especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o debate não é prejudicial para os trabalhos da missão. Na verdade, a discussão é essencial para manter viva a discussão sobre a participação de mulheres na exploração espacial, visto que a desigualdade entre homens e mulheres na área ainda é considerável. 

“O fato de nenhuma mulher ter sido escolhida transmite uma mensagem simbólica importante. Uma missão desse porte poderia funcionar como um poderoso instrumento para incentivar mais mulheres a ingressarem na ciência – isso não aconteceu, o que é lamentável”, diz o pesquisador de Ciências Planetárias do Observatório Nacional, Gustavo Madeira.

Karin reforça que a participação de mulheres é essencial para inspirar crianças e jovens no futuro a seguirem a carreira e tornar a presença feminina cada vez maior na área. “Quando um grupo altamente visível é composto exclusivamente por homens, a mensagem transmitida para muitas meninas pode ser a de que aquele não é um espaço para elas. Isso tem impacto sobre quem decide seguir uma carreira científica ou tecnológica”, afirma.