Nem simples, nem direta: entenda a relação entre câncer e agrotóxicos
Substâncias combinadas de agrotóxicos afetam células e podem favorecer tumores ao longo do tempo
atualizado
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Um estudo recente publicado em 1º de abril na revista científica Nature reforça que a exposição a misturas de agrotóxicos pode estar associada a alterações celulares que favorecem o desenvolvimento de câncer ao longo do tempo.
A pesquisa destaca que o impacto não vem, necessariamente, de uma única substância, mas da combinação de diferentes compostos presentes no ambiente.
Na prática, especialistas explicam que a relação entre agrotóxicos e câncer não é simples nem direta. Ainda assim, o acúmulo de evidências científicas tem mostrado que exposições repetidas, principalmente em contextos ocupacionais, podem aumentar o risco de alguns tipos da doença.
O estudo analisou exposições ambientais a combinações de pesticidas e identificou que essas misturas estão associadas a alterações em processos celulares e epigenéticos — responsáveis por regular o funcionamento dos genes — que podem desorganizar o controle normal das células.
Segundo os autores, esse tipo de alteração pode criar um ambiente biológico mais favorável ao surgimento de tumores ao longo do tempo, especialmente quando a exposição ocorre de forma contínua.
O que muda quando substâncias agrotóxicas são combinadas
Na vida real, a exposição raramente ocorre a apenas um produto isolado. Segundo o oncologista Guilherme Harada, do Hospital Sírio-Libanês, o cenário mais comum envolve contato com múltiplos compostos, em doses pequenas, porém contínuas.
“Na vida real, as pessoas não se expõem a uma única substância isoladamente, mas sim a uma combinação de diferentes compostos, muitas vezes em doses pequenas, porém repetidas ao longo do tempo”, explica.
Do ponto de vista toxicológico, avaliar substâncias isoladas não reflete completamente o que acontece no cotidiano. A diretora da Sociedade Brasileira de Toxicologia, Lilian Cristina Pereira, destaca que a exposição combinada exige uma análise mais ampla.
“Misturas podem apresentar efeitos diferentes daqueles previstos a partir de avaliações de cada substância química individualmente”, afirma.

O estudo da Nature aponta que a exposição a misturas químicas pode provocar alterações epigenéticas — mudanças na forma como os genes funcionam, sem alterar o DNA em si.
De forma simplificada, é como se o organismo passasse a “ligar” ou “desligar” partes do funcionamento celular de maneira inadequada. Com o tempo, esse desequilíbrio pode comprometer o controle do crescimento celular.
Para Lilian, as mudanças podem afetar funções essenciais do organismo.“Quando isso acontece, alguns genes podem passar a funcionar de maneira diferente do esperado, afetando processos importantes como o crescimento celular e a resposta a danos”, explica.
Em determinadas condições, o cenário pode contribuir para o desenvolvimento de tumores ao longo do tempo, especialmente quando há exposição contínua associada a outros fatores de risco.
Quem está mais exposto
Os especialistas destacam que o risco não é igual para toda a população. Os grupos mais vulneráveis são aqueles com maior nível de exposição:
- Trabalhadores rurais e aplicadores de agrotóxicos;
- Moradores de áreas agrícolas próximas a pulverizações;
- Pessoas expostas de forma contínua a agrotóxicos no ambiente de trabalho.
Embora não seja possível afirmar que um caso individual de câncer tenha sido causado diretamente por agrotóxicos, estudos epidemiológicos vêm apontando associações consistentes. De acordo com o oncologista Harada, alguns tipos de câncer são mais frequentemente relacionados à exposição crônica à agrotóxicos.
Principais cânceres relacionado a agrotóxicos
- Linfomas.
- Leucemias.
- Câncer de próstata.
- Câncer de fígado.
- Câncer de pulmão.
O estudo não permite afirmar uma relação direta de causa e efeito em nível individual, mas fortalece um sinal de alerta relevante para a saúde pública.
“Não é possível afirmar que o desenvolvimento de um câncer foi 100% causado por exposição a agrotóxicos, mas o conjunto de evidências reforça a importância da vigilância e da regulação”, conclui Harada.
Os especialistas reforçam que no cenário atual, compreender como diferentes substâncias interagem no organismo é fundamental para avaliar riscos reais e proteger, principalmente, as populações mais expostas.
