Farmacêutico destaca plantas brasileiras que têm potencial medicinal
Especialistas explicam como a biodiversidade do Brasil revela plantas com potencial medicinal e novos caminhos para a ciência
atualizado
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A enorme biodiversidade brasileira esconde uma variedade de espécies com potencial medicinal, capazes de inspirar novos tratamentos e medicamentos. Apesar dessa riqueza natural, especialistas afirmam que apenas uma pequena parcela das plantas nativas do país já foi estudada de forma suficiente para virar remédio.
De acordo com o farmacêutico Nilton Luz Netto Junior, de Brasília, ainda são poucas as espécies brasileiras que despertaram interesse consistente da indústria farmacêutica. Entre as que já possuem registros ou pesquisas mais avançadas estão o maracujá, a espinheira-santa e a agoniada.
Segundo ele, essas plantas apresentam um número significativo de registros junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que demonstra que as empresas farmacêuticas têm se interessado pelo desenvolvimento de medicamentos a partir dessas espécies.
“Existem outras plantas brasileiras com interesse medicinal, como o barbatimão, mas muitas ainda possuem poucos registros de medicamentos. Isso mostra que o Brasil ainda precisa avançar bastante na pesquisa de sua própria biodiversidade”, explica Nilton.
Além da indústria farmacêutica, algumas espécies também são utilizadas em iniciativas públicas conhecidas como farmácias vivas, onde plantas medicinais são cultivadas e transformadas em preparações terapêuticas para uso da população. No Distrito Federal, por exemplo, plantas como alecrim-pimenta e erva-baleeira são utilizadas em formulações com propriedades antissépticas e anti-inflamatórias.
Biodiversidade brasileira como laboratório natural
Para a bióloga Lélia Leoi Romerio, professora do Centro Universitário de Brasília (Ceub), a biodiversidade do país oferece um campo enorme para pesquisas sobre potencial medicinal de plantas.
“O Brasil possui uma das maiores biodiversidades do planeta, o que significa que muitas plantas ainda guardam substâncias com grande potencial terapêutico que nem foram descobertas”, afirma.
Entre as espécies que despertam interesse científico estão plantas do Cerrado e da Amazônia, como sucupira-branca e barbatimão, conhecidas na medicina popular por propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes.
Lélia participou de uma pesquisa envolvendo a sucupira-branca, planta nativa do Cerrado. O estudo avaliou o uso do extrato vegetal no processo de cicatrização de feridas em pacientes com diabetes tipo 2.
“Observamos uma melhora significativa no processo de cicatrização quando o extrato foi associado ao tratamento convencional. Os resultados indicam como a biodiversidade brasileira pode contribuir para novas estratégias terapêuticas”, explica.
Do conhecimento tradicional ao laboratório
Grande parte das pesquisas com plantas medicinais começa com o conhecimento popular. Comunidades tradicionais muitas vezes indicam quais espécies são utilizadas para tratar determinados problemas de saúde.
A partir dessas informações, cientistas iniciam um processo longo de investigação científica. Primeiro, identificam corretamente a planta e isolam seus compostos químicos. Depois, realizam testes farmacológicos e toxicológicos em laboratório antes de avançar para estudos clínicos em humanos.
Segundo os especialistas, transformar uma planta em medicamento pode levar mais de uma década e exigir altos investimentos em pesquisa.
Riscos do uso
Apesar do potencial medicinal, especialistas alertam que o uso de plantas sem orientação profissional pode trazer riscos à saúde.
Reações alérgicas, toxicidade e interação com medicamentos são alguns dos problemas possíveis quando as plantas são consumidas de forma inadequada. Além disso, a dosagem correta é fundamental para evitar efeitos adversos.
Natural não significa automaticamente seguro. Algumas substâncias naturais são extremamente potentes e precisam de estudos de segurança, dose e interação medicamentosa.
Preservar para descobrir novos remédios
Para os pesquisadores, proteger a biodiversidade brasileira é essencial para ampliar o conhecimento científico e descobrir novas substâncias com potencial medicinal.
O farmacêutico Nilton ressalta que muitas espécies já foram perdidas ao longo dos séculos devido ao desmatamento e à falta de manejo sustentável.
“Precisamos incentivar pesquisas sobre plantas brasileiras e preservar nossa biodiversidade. Muitas espécies podem se tornar fontes de novos medicamentos no futuro”, conclui.
Várias plantas com potencial medicinal ainda não foram estudadas e podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência, reforçando a importância da conservação da biodiversidade brasileira e do incentivo à pesquisa científica.
