Estudo explica por que algumas pessoas não são felizes ouvindo música
Pesquisa mostra que, em parte da população, o cérebro não liga o som à sensação de prazer, tornando a música emocionalmente neutra
atualizado
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Ouvir música costuma despertar emoções fortes. Muitas pessoas sentem alegria, arrepio ou vontade de dançar ao escutar uma canção favorita. Mas isso não acontece com todo mundo.
Para um pequeno grupo de pessoas, a música simplesmente não provoca prazer — mesmo que a audição seja normal e que outras atividades tragam satisfação.
Esse fenômeno foi analisado em um estudo publicado em agosto de 2025 na revista Trends in Cognitive Sciences. A pesquisa ajuda a explicar por que a música não traz alegria para algumas pessoas, mostrando que a resposta está no funcionamento do cérebro.
Os cientistas chamam a condição de anhedonia musical específica. Pessoas com esse perfil conseguem ouvir, reconhecer melodias e entender ritmos, mas não sentem emoção ou prazer ao escutar música. Ainda assim, elas podem gostar de comida, de atividades sociais ou de ganhar recompensas financeiras — o problema está restrito às canções.
Ou seja, não se trata de falta de sensibilidade emocional geral nem de dificuldade auditiva. O cérebro funciona, mas responde de forma diferente quando o estímulo é musical.
O que acontece no cérebro
Segundo o estudo, a explicação está em uma falha de comunicação entre duas áreas do cérebro. De um lado, estão as regiões responsáveis por processar os sons. Do outro, estão os circuitos ligados à sensação de prazer e recompensa.
Em pessoas que sentem alegria ao ouvir música, essas áreas trabalham juntas: o som ativa regiões auditivas e, logo depois, estimula o sistema de recompensa, associado à liberação de dopamina. Já em quem tem anhedonia musical, essa conexão é mais fraca. O som é percebido, mas não chega a gerar prazer emocional.
Exames de imagem cerebral mostraram que, nesses casos, as áreas ligadas ao prazer quase não se ativam durante a audição de música, mesmo reagindo normalmente a outros estímulos agradáveis.
Para estudar o fenômeno, os cientistas criaram um questionário chamado Barcelona Music Reward Questionnaire (BMRQ). Ele avalia o quanto a música é prazerosa em aspectos como emoção, melhora do humor, vínculo social, vontade de se movimentar e curiosidade por novas canções.
Pessoas com anhedonia musical costumam marcar pontuações baixas em todos esses pontos, reforçando que a música não tem um papel emocional importante para elas.
Experiência que varia entre as pessoas
O estudo também mostra que o prazer musical não é igual para todo mundo. Existe uma escala: algumas pessoas sentem emoções muito intensas com música, outras têm respostas mais leves. A anhedonia musical está no extremo dessa variação, mas diferenças menores são comuns e naturais.
Os pesquisadores ainda investigam por que essa desconexão acontece. Fatores genéticos parecem influenciar bastante, e estudos indicam que mais da metade da variação na resposta emocional à música pode ter relação com herança genética. Experiências de vida e desenvolvimento do cérebro também podem ter impacto.
Ainda não se sabe se essa condição pode mudar com o tempo ou se treinamento musical e novas experiências sonoras poderiam fortalecer essas conexões no cérebro.
Entender por que a música não traz prazer para algumas pessoas ajuda os cientistas a compreender melhor como o cérebro produz prazer em geral. Isso pode contribuir para pesquisas sobre outros tipos de anhedonia, como a dificuldade de sentir prazer em relações sociais ou atividades do dia a dia, comum em alguns transtornos mentais.
