Mosca-da-fruta é um modelo simplificado do corpo humano. Entenda

Mosca tem 65% dos genes humanos. Inseto é usado em laboratório para investigar cérebro, metabolismo e comportamento

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Jordan Lye / Getty Images
Foto colorida de moscas da fruta sob abacaxi -Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de moscas da fruta sob abacaxi -Metrópoles - Foto: Jordan Lye / Getty Images

A Drosophila melanogaster, conhecida como mosca-da-fruta, compartilha cerca de 65% dos genes com os seres humanos — uma semelhança que tem transformado o inseto em um dos principais modelos da ciência para estudar doenças e o funcionamento do organismo.

Segundo a geneticista Ana Luiza Bossolani Martins, professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, a proximidade não está apenas nos genes, mas também na forma como eles funcionam.

“Há uma conservação funcional entre os sistemas, inclusive genética, o que permite estudar diferentes condições humanas a partir da mosca”, explica.

Na prática, a drosófila funciona como um modelo simplificado do corpo humano. Por ter estruturas mais simples, ela permite observar com mais facilidade mecanismos biológicos fundamentais que, em organismos mais complexos, seriam mais difíceis e caros de investigar.

Do cérebro ao metabolismo da mosca

Um dos principais focos de estudo está no sistema nervoso. Mesmo com um cérebro muito menor, a mosca compartilha neurotransmissores importantes com humanos, como dopamina, serotonina, GABA e glutamato. Isso permite analisar funções básicas do comportamento.

“A gente consegue avaliar aprendizado, memória, interação social, ciclo circadiano e diversas respostas sensoriais e comportamentais”, afirma Ana Luiza.

A drosófila também é usada para estudar doenças neurológicas, como Parkinson, Alzheimer e esclerose lateral amiotrófica, além de condições do neurodesenvolvimento e transtornos psiquiátricos.

Outro campo relevante é o metabolismo. A mosca apresenta vias metabólicas conservadas, como a da insulina, responsáveis pelo controle de energia, crescimento e armazenamento de nutrientes. Com isso, pesquisadores conseguem investigar obesidade, diabetes e a relação entre dieta e funcionamento do organismo.

Foto colorida de de zoom em mosca da fruta - Metrópoles
Mosca-da-fruta é usada em laboratório por ter genes semelhantes aos humanos

O sucesso da mosca-da-fruta nos laboratórios está ligado a características práticas. O ciclo de vida é curto — cerca de 12 a 15 dias —, o que permite acompanhar várias gerações em pouco tempo.

Além disso, é possível obter muitos indivíduos rapidamente, o que melhora a confiabilidade estatística dos experimentos. A professora Maria Rita Passos Bueno, da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências, destaca que o modelo também é mais acessível.

“Isso permite realizar experimentos em menos tempo e com menor custo do que em outros modelos, como camundongos ou células humanas em cultura”, afirma.

Outro diferencial importante é a manipulação genética. Hoje, cientistas conseguem inserir genes humanos na mosca e observar como eles se comportam, incluindo a produção de proteínas humanas — um avanço que abre caminho para o desenvolvimento e teste inicial de medicamentos.

Até onde os resultados podem ser comparados

Apesar das semelhanças, as especialistas alertam que os resultados obtidos na mosca não podem ser transferidos diretamente para humanos. O cérebro da drosófila, por exemplo, tem cerca de 150 mil neurônios, enquanto o humano possui bilhões.

Isso limita a reprodução de funções mais complexas. “A extrapolação é parcial. Resultados promissores ainda precisam ser validados em organismos mais complexos”, explica Ana Luiza.

Maria Rita reforça a cautela: “Se um medicamento melhora determinados comportamentos em moscas, isso indica que ele atua em uma via biológica relevante, mas não garante o mesmo efeito em humanos”.

Outros modelos ajudam a avançar nas descobertas

Para aprofundar as pesquisas, cientistas utilizam outros organismos com diferentes níveis de complexidade. Entre os principais estão o peixe-zebra, anfíbios como Xenopus e roedores, como camundongos e ratos.

No fim, a estratégia da ciência é progressiva. Começa com organismos mais simples, como a mosca, para entender mecanismos básicos, e avança para sistemas mais complexos antes de chegar aos estudos em humanos.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?