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Ciência

Maven: Nasa se despede de sonda que revolucionou estudos sobre Marte

Missão revelou como Marte perdeu sua atmosfera ao longo de bilhões de anos e deixou legado para futuras explorações espaciais

15/06/2026 02:00, atualizado 11/06/2026 14:35
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NEMES LASZLO/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images
Marte, ilustração. Marte é o quarto planeta a partir do Sol. É um mundo rochoso e desértico. Orbita o Sol a uma distância média de cerca de 227 milhões de quilômetros. Seu diâmetro é aproximadamente metade do da Terra. A cor vermelha se deve aos óxidos de ferro presentes nas rochas.

A Nasa se despede de uma das missões mais importantes para a compreensão do Planeta Vermelho. Após mais de uma década em operação, a sonda Maven (sigla para Atmosfera de Marte e Evolução de Compostos Voláteis, em português) encerra um capítulo histórico na exploração espacial.

A sonda ajudou cientistas a desvendar um dos maiores mistérios de Marte: como um planeta que já teve condições mais favoráveis à presença de água se transformou em um ambiente frio, seco e hostil.

Lançada em 2013 e inserida na órbita marciana em 2014, a missão foi projetada para estudar a alta atmosfera do planeta e sua interação com o vento solar. Ao longo dos anos, os dados coletados permitiram compreender melhor a evolução da atmosfera de Marte, uma questão central para entender o passado do planeta e seu potencial de habitabilidade.

A Nasa anunciou o encerramento oficial da missão em 3 de junho de 2026, após cerca de seis meses sem conseguir restabelecer contato com a sonda. O último sinal foi recebido em dezembro de 2025 e, desde então, diversas tentativas de comunicação foram realizadas sem sucesso. Uma investigação concluiu que a espaçonave provavelmente sofreu uma falha que comprometeu suas operações.

A atmosfera de Marte e a transformação do planeta

Diferente dos robôs que exploram a superfície marciana, como Curiosity e Perseverance, a Maven concentrou seus esforços no ambiente ao redor do planeta. O principal objetivo era investigar como a atmosfera de Marte foi sendo perdida para o espaço ao longo de bilhões de anos.

Segundo o doutor em astrofísica Adam Smith, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), a missão foi fundamental para comprovar que esse processo continua acontecendo até hoje.

“A Maven mostrou que Marte ainda perde atmosfera para o espaço e que tempestades solares podem acelerar significativamente esse fenômeno”, afirma.

As observações indicaram que a ausência de um campo magnético global forte deixou a atmosfera marciana vulnerável ao vento solar. Com isso, partículas atmosféricas passaram a escapar gradualmente para o espaço, reduzindo a pressão do planeta e dificultando a permanência de água líquida na superfície.

O fim de uma discussão científica histórica

As descobertas da Maven tiveram impacto direto em uma das principais questões da ciência planetária: Marte já teve uma atmosfera mais espessa e condições mais favoráveis à vida?

Para o astrônomo Renato Las Casas, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a missão ajudou a encerrar um debate que persistia há décadas entre pesquisadores.

“A grande contribuição da Maven foi acabar com a discussão sobre se Marte teve ou não uma atmosfera rica no passado”, destaca.

Os resultados reforçaram a hipótese de que o planeta já apresentou condições climáticas muito diferentes das atuais. Evidências apontam que Marte possivelmente possuía uma atmosfera mais densa, temperaturas mais amenas e maior estabilidade para a existência de água líquida.

Com os dados obtidos pela sonda, os cientistas conseguiram reconstruir parte dessa trajetória evolutiva, identificando a influência do Sol na remoção gradual dos gases atmosféricos.

Legado para futuras missões ao planeta vermelho

Mesmo com o encerramento de sua missão, a Maven continuará contribuindo para a ciência. Todo o material coletado permanece disponível em bancos de dados da Nasa e poderá ser analisado por pesquisadores do mundo inteiro durante as próximas décadas.

Além de ampliar o conhecimento sobre a atmosfera de Marte, a missão também forneceu informações valiosas para futuras expedições humanas ao planeta. Os dados ajudam a compreender os riscos causados pela radiação espacial, pelas tempestades solares e pelas condições ambientais enfrentadas por equipamentos e astronautas.

O legado da Maven vai além de Marte. Os resultados também servem como referência para estudos sobre a evolução de outros planetas rochosos, incluindo a Terra e exoplanetas localizados fora do Sistema Solar.

Ao encerrar suas operações, a sonda deixa uma herança científica que ajudou a responder perguntas fundamentais sobre o passado marciano e abriu novos caminhos para a exploração espacial. Mais do que estudar a atmosfera de Marte, a missão revelou como a história de um planeta pode ser transformada pela interação contínua com sua estrela.

Mesmo com o fim da missão, a Maven não retornará à Terra nem será retirada da órbita marciana. A sonda continuará circulando ao redor de Marte por décadas, embora já não seja capaz de enviar dados científicos ou receber comandos da equipe responsável pela missão.

Segundo estimativas da Nasa, a espaçonave poderá permanecer em órbita entre 50 e 100 anos antes de ser atraída gradualmente pela atmosfera do planeta.