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Ciência

Leitura e matemática na infância alteram estrutura cerebral e cognição

Práticas de leitura e desafios matemáticos fortalecem redes de atenção e raciocínio sem a necessidade de sobrecarga de estudos

03/10/2026 02:00
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Menino na infância sendo estimulado a pensar através de atividades lúdicas e educativas

A neuroplasticidade permite que o cérebro infantil adapte sua estrutura e conexões de acordo com as experiências vividas. Ao interagir com histórias, identificar padrões ou comparar quantidades, o cérebro da criança fortalece circuitos dedicados à linguagem, memória e foco.

Pesquisas na área de neurociência cognitiva indicam que estímulos precoces não dependem de treinamentos exaustivos, mas de interações significativas que moldam o desenvolvimento cognitivo.

Na leitura, o impacto vai além do aprendizado das letras. O hábito de escutar ou ler uma narrativa exige a manutenção das informações na memória para a compreensão do enredo. Esse processo exercita a atenção sustentada de forma gradual. Segundo a psicopedagoga Virgínia de Castro, especialista em neurociência e educação da Maple Bear Brasília, a prática atua diretamente na capacidade de concentração.

“A leitura exige que a criança pare, acompanhe uma história, preste atenção aos detalhes e mantenha as informações na cabeça para entender o que está acontecendo. Com a prática, ela vai exercitando essa capacidade de permanecer concentrada por mais tempo”, explica.

Jogos simples ajudam a treinar o cérebro

Assim como no campo da linguagem, as noções matemáticas começam a se consolidar muito antes do ensino formal das operações. Atividades simples, como classificar objetos por tamanho, reconhecer sequências ou dividir brinquedos, mobilizam circuitos cerebrais ligados às relações espaciais e de quantidade.

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A introdução de jogos de tabuleiro, quebra-cabeças e desafios práticos estimula o planejamento e a busca por soluções.

Contudo, a neuropsicopedagoga Elaine Cristina, especialista em neurociência cognitiva do Colégio Sigma, ressalta que jogos e ensino tradicional atuam de maneiras complementares, sem gerar exatamente a mesma reestruturação neural.

“Essa comparação seria simplista. Experiências diferentes mobilizam redes cerebrais de maneiras diferentes e podem ser complementares. O jogo oferece exploração, desafio e aplicação. O ensino sistemático organiza conhecimentos, apresenta conceitos e cria uma progressão que dificilmente ocorreria apenas pela descoberta espontânea”, afirma.

A ausência de estímulos na infância pode impactar o repertório com o qual a criança chega à escola, mas especialistas alertam que dificuldades de aprendizagem envolvem múltiplos fatores, como genética, sono, estado emocional e qualidade do ensino.

O aprendizado efetivo ocorre no equilíbrio entre desafio e interesse, sem a necessidade de transformar o ambiente familiar em uma sala de aula de cobranças rígidas. Experiências simples do dia a dia, como medir ingredientes ao cozinhar ou contar objetos, já são suficientes para ativar esses caminhos neurais de forma natural.

Como os adultos podem ajudar

O papel dos adultos nesse processo envolve mais a mediação por meio de perguntas do que a entrega de respostas prontas. Questionar como a criança chegou a determinado raciocínio estimula a metacognição, ou seja, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento.

“Quando perguntamos ‘como você descobriu?’, ‘será que existe outro jeito?’ ou ‘o que aconteceria se fizéssemos diferente?’, convidamos a criança a explicar o próprio raciocínio, testar hipóteses e desenvolver autonomia para pensar”, ressalta Elaine.

O uso excessivo e passivo de telas surge como um obstáculo ao desenvolvimento dessas redes cerebrais quando substitui interações concretas. O problema não reside exclusivamente no dispositivo digital, mas naquilo que ele deixa de proporcionar, como o movimento, a conversa e a exploração do espaço.

Virgínia aponta que o consumo passivo limita as oportunidades de aprendizado. “Se grande parte do tempo é ocupada por um consumo passivo de conteúdo, ela acaba tendo menos oportunidades de exercitar essas habilidades. Não é simplesmente uma questão de proibir a tela, mas de garantir equilíbrio e variedade nas experiências”, observa.

Ao garantir estímulos variados e adequados a cada faixa etária, famílias e educadores promovem o fortalecimento de redes cerebrais essenciais. A neuroplasticidade reforça que o cérebro se desenvolve em resposta às práticas recorrentes, fazendo do brincar, do ler e do raciocinar as bases do desenvolvimento infantil.