Indestrutível, tardígrado sobrevive a condições letais com pausa biológica
Presentes até em musgos de muros, animais microscópicos inspiram avanços na conservação de vacinas e medicina

Os tardígrados, popularmente conhecidos como ursos-d’água, medem de 0,1 a 1 milímetro e possuem a capacidade extraordinária de resistir ao vácuo do espaço, a pressões seis vezes maiores que as do ponto mais fundo do oceano, a baixíssimas temperaturas e a níveis de radiação mil vezes superiores ao limite mortal para os seres humanos.
A chave para essa sobrevivência não está em uma carapaça rígida, mas sim em adaptações bioquímicas em nível celular e molecular que permitem ao micro-animal entrar em um estado de dormência extrema, denominado criptobiose.
Encontrados em todo o planeta, desde sedimentos marinhos até gotículas de orvalho em musgos e folhas em decomposição, os invertebrados de oito patas apelam para a anidrobiose sempre que o ambiente seca. Nesse processo, o tardígrado encolhe os membros, assume uma forma compacta chamada tun e perde entre 95% e 97% da água do seu organismo.
Com a desidratação, o metabolismo cai a níveis praticamente nulos, paralisando as funções vitais sem a necessidade de ingerir alimentos, absorver água ou queimar gordura.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Ele simplesmente aperta o botão de ‘pausa da vida’. Mas isso não é hibernação, afinal, um urso hibernando continua respirando e queimando gordura, e o tardígrado não. É como se a vida dele ficasse congelada no tempo, esperando a água voltar”, explica o biólogo Fausto Ferraz, doutor em Biologia Celular e professor da Faminas.
Para manter a integridade física durante a perda de água, o organismo do animal ativa mecanismos moleculares avançados. Proteínas intrinsecamente desordenadas (TDPs) e açúcares como a trealose transformam o interior celular em uma matriz vítrea que endurece e estabiliza organelas e membranas. Simultaneamente, a proteína supressora de danos (Dsup) atua diretamente na preservação do material genético.
“Ela se liga ao DNA como se fosse um escudo, protegendo o material genético das células contra danos causados por radiação intensa e por radicais livres”, explica o biólogo e professor Luis Felipe Tuon, do Colégio Oficina do Estudante.
Testes de laboratório demonstraram a eficácia dessa proteção: ao transferirem a proteína Dsup para células humanas, pesquisadores da Universidade de Tóquio, no Japão, observaram uma redução de cerca de 40% nos danos causados por raios X.
Vida pode permanecer “pausada” por décadas
A preservação em estado suspenso pode durar longos períodos. O recorde de sobrevivência comprovado cientificamente ocorreu em 2016, quando cientistas reanimaram tardígrados mantidos congelados em musgo da Antártica por 30,5 anos.
Além do interesse científico, o animal desempenha um papel fundamental nos ecossistemas em que habita. Quando ativos, atuam na reciclagem de nutrientes do solo, alimentam-se de algas, bactérias e pequenos nematódeos, e servem de alimento para ácaros e larvas de insetos.
Ferraz reforça que a simplicidade morfológica do tardígrado, que respira pela pele e não possui coração ou pulmões, contrasta com sua relevância científica.
Pesquisadores da Universidade de Wyoming, nos Estados Unidos, conseguiram misturar as proteínas de tardígrados ao Fator VIII, um medicamento biológico instável usado por pessoas com hemofilia. Com a proteção da proteína do tardígrado, o medicamento pôde ser desidratado e mantido em temperaturas de até 95 °C sem perder a eficácia. O mesmo princípio está sendo testado para criar “vacinas secas” que dispensam geladeiras.
“É um animal que, hoje, inspira pesquisas para conservar vacinas, proteger células e quem sabe até ajudar astronautas em viagens espaciais”, finaliza o professor universitário.
