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Incas nobres e pobres usavam tranças como caderno contábil, diz estudo

Análise de quipu de 500 anos indica que pessoas de baixo status social também registravam dados em tranças no Império Inca

atualizado

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Reprodução/Science Advances
Quipu contagem inca cabelo
1 de 1 Quipu contagem inca cabelo - Foto: Reprodução/Science Advances

Um novo estudo mostrou que o hábito de usar cordas e cabelos para manter registros de movimentações financeiras era uma prática muito mais difundida do que se imaginava entre os incas, povo pré-colombiano que construiu um império na região do atual Peru.

Uma análise publicada na revista Science Advances, na terça-feira (13/8), revelou que o costume de manter as anotações em cordas era comum não apenas entre os nobres, mas também entre plebeus. A conclusão foi possível graças à investigação de um cordão inca de 500 anos, com pouco mais de um metro, feito de cabelo humano.

Estes cordões de nós entrelaçados, os quipus, eram conhecidos, mas acreditava-se que a prática estava relacionada apenas às elites. A análise indica que plebeus também produziam registros de dados com os materiais trançados.

O estudo identificou que o cabelo incorporado ao quipu KH0631 pertencia a uma pessoa com dieta pobre em nutrientes, típica de populações mais pobres. A descoberta desafia a visão de que apenas burocratas da alta hierarquia sabiam contar ou eram responsáveis pela escrita inca.

Historicamente, fios de cabelo em quipus funcionavam como assinatura do criador, imbuindo o artefato com sua “essência” e autoridade.

Tranças além da elite inca

Segundo relatos coloniais espanhóis, os “khipu kamayuq”, especialistas na confecção dos cordões, eram homens da elite que uniam autoria e execução em seus registros. O novo estudo sugere que o conhecimento era mais difundido e incluía indivíduos de origem comum.

A pesquisa mediu isótopos de carbono, nitrogênio e enxofre no cabelo para identificar dieta e localização geográfica do autor. O resultado apontou consumo predominante de tubérculos e verduras, com pouca carne ou milho, típico das classes populares.

A análise de isótopos de enxofre indicou ausência significativa de alimentos marinhos, sugerindo que o criador vivia nas terras altas, entre 2.600 e 2.800 metros, no sul do Peru ou norte do Chile.

Considerando a taxa média de crescimento capilar, o material usado corresponde a mais de oito anos de vida da pessoa, armazenados no artefato que sobreviveu meio milênio.

“Na cosmologia inca, o cabelo mantinha a identidade da pessoa, mesmo separado do corpo. Por isso, cortar e guardar mechas tinha significado ritual e político. Imperadores, por exemplo, tinham fios preservados e venerados mesmo após a morte”, afirma a líder da investigação, a professora de antropologia social Sabine Hyland, da Universidade de St Andrews, na Escócia, em artigo publicado no portal The Conversation.
imagem colorida de Machu PIcchu, no Peru
Machu PIcchu, no Peru, foi construída pelos Incas

Técnica inédita de análise

Esta é a primeira vez que a análise isotópica é aplicada diretamente em fibras de quipu. A técnica permitiu reconstruir parte da biografia alimentar e geográfica do fabricante, algo antes impossível sem registros escritos.

O estudo mostrou que não havia distinção absoluta entre quem registrava dados e quem os interpretava. Plebeus podiam atuar como produtores de informação, possivelmente para contextos locais ou comunitários.

A descoberta também sugere que a “alfabetização” em quipus era mais ampla, atingindo camadas sociais antes vistas apenas como usuárias finais, e não como criadoras, desses registros.

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