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Ciência

Fezes de cães não viram adubo e trazem risco de infecção por parasitas

Recolha o cocô do seu cachorro! Especialistas alertam que fezes de cães exigem um ambiente controlado para virar adubo

26/08/2026 02:00
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Imagem colorida mostra cachorro passeando - Metrópoles

É comum ouvir que fezes de animais podem ser usadas como adubo, principalmente as daqueles que se alimentam de plantas, folhas, frutas e sementes, como boi, cavalo e aves. Muita gente usa essa desculpa para não recolher o cocô de cachorros, mas o processo não é tão simples assim.

O biólogo e médico veterinário Murilo Luiz e Castro Santana, especialista em Gestão, Auditoria e Perícia Ambiental, diz que as fezes de cães até poderiam servir como adubo por possuírem matéria orgânica e nutrientes, mas para isso precisariam passar por um tratamento.

“Para que dejetos animais sejam aproveitados de forma ambientalmente adequada, é necessário um processo controlado de coleta, tratamento e destinação, o que depende diretamente de um sistema que pode envolver compostagem, biodigestão ou outras formas de tratamento da matéria orgânica”, conta Santana.

Ele explica que nesses processos há um controle de fatores importantes, como temperatura, umidade, aeração, quantidade de material e tempo de tratamento.

O engenheiro agrônomo Caio de Teves Inácio, pesquisador da Embrapa Agrobiologia, alerta que somente a compostagem profissional é considerada bem-feita, pois ela aquece o material a 60 ou 65 graus para eliminar possíveis patógenos.

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“Essa temperatura é a que mata e impede que se transmitam mais patógenos pela utilização do composto. Quando a gente fala em compostagem doméstica, por exemplo, as pessoas vão querer usar na horta e no paisagismo do jardim, o que não é recomendado, ainda mais quando crianças podem ter contato com esse solo”, esclarece Inácio.

Segundo o engenheiro, quando o esterco de animais vai para o solo, ele começa a sofrer decomposição pela microbiota da terra, o que aumenta a atividade biológica. Porém, se for depositado em temperaturas ambientes e tiver patógenos, esses microrganismos se proliferarão também, podendo contaminar a superfíce.

Fezes de cachorros, se não forem recolhidas, podem transmitir doenças

O médico veterinário orienta que, no caso específico de fezes de cachorros em áreas urbanas e de uso coletivo, como calçadas, praças e gramados, o recolhimento é fundamental. Se forem deixadas nesses ambientes, elas não vão virar adubo: pelo contrário, representam perigo tanto para humanos quanto para os próprios animais.

“Além do incômodo relacionado ao uso dos espaços públicos e mau cheiro, existe uma questão sanitária: as fezes podem conter parasitas e agentes infecciosos. Um exemplo relacionado à saúde humana é a toxocaríase, que tem transmissão associada à contaminação do solo por ovos do parasita presentes nas fezes de cães e gatos”, alerta Santana.

Ele ressalta que também há o risco de contaminação dos cães pelo parvovírus canino, que pode ser eliminado nas fezes de animais infectados e permanecer no ambiente por longos períodos. Isso facilita a exposição de outros cachorros, principalmente os mais jovens e não vacinados.

Outro ponto importante é a questão ambiental, já que o acúmulo e a disposição inadequada de dejetos caninos podem contribuir com matéria orgânica, nitrogênio, fósforo, parasitas e bactérias para os corpos d’água, especialmente pelo escoamento da água da chuva.

“Não se trata apenas de uma questão de limpeza urbana, mas também de saúde pública, saúde animal e qualidade ambiental. É o que chamamos de saúde única”, reforça Santana.

Perigo para o solo

De acordo com Inácio, já foram documentados casos de coletas de alface adubada com estercos aviário e suíno que continham coliformes fecais nas folhas.

“A recomendação quanto a plantas como o morango, alface e outras, que são consumidas frescas, é a de não utilizar estercos in natura. O ideal é que sejam compostados bem antes do solo receber as plantações, para dar segurança sanitária às partes comestíveis”, enfatiza.

Mesmo que as plantas sejam lavadas depois, é essencial tomar cuidado para que o solo não fique carregado de patógenos de fezes. Em estercos frescos, aqueles que não foram curtidos e não passaram por compostagem, a recomendação é que não sejam usados imediatamente em solo agrícola.

De modo geral, ambos especialistas destacam que fezes, sejam de cão, gato ou outros animais, mesmo herbívoros, não devem ser depositadas diretamente no solo. Além de ser uma questão sanitária, é um ato de conservação e respeito ao uso coletivo da cidade.