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Ciência

El Niño pode causar inundações e deslizamentos em zonas costeiras

A costa brasileira é uma região altamente urbanizada, cheia de grandes centros urbanos, e pode ser atingida fortemente pelo El Niño

03/08/2026 02:00
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Imagem colorida mostra zona costeira - Metrópoles

A cada dois a sete anos, acontece o El Niño, um fenômeno climático que eleva a temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial. O calor na região pode enfraquecer ou inverter a orientação dos ventos alísios e atrapalhar os padrões climáticos globais.

Em 2026, espera-se um “super El Niño”, um fenômeno climático mais extremo do que em anos anteriores. Estimativas do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês) avaliam que há chances de ele ser o mais forte já registrado. O grande risco são os eventos climáticos extremos, como chuvas ou secas mais intensas.

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) Marcus Polette afirma que os eventos climáticos provocados pelo El Niño trarão riscos de inundações, deslizamentos e enxurradas a todas as zonas costeiras brasileiras.

“O El Niño modifica a circulação atmosférica e oceânica em escala global, alterando o regime de chuvas, as temperaturas e a frequência de eventos extremos. Em um cenário de mudanças climáticas, esses efeitos tendem a ser potencializados, tornando as cidades e os ecossistemas costeiros ainda mais expostos a secas, enchentes, tempestades, ondas de calor, erosão costeira e outros impactos ambientais e socioeconômicos”, explica Polette, que também é professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

O risco se dá especialmente pela vulnerabilidade dessas regiões a pequenas alterações nas condições climáticas. Mudanças mínimas podem causar impactos significativos nos ecossistemas, nas cidades e nas atividades econômicas.

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“No Brasil, a importância das zonas costeiras é ainda maior. Trata-se de uma região altamente urbanizada, onde se localizam grandes centros urbanos, importantes complexos portuários, polos turísticos, áreas industriais, pesqueiras e ecossistemas estratégicos, como manguezais, restingas, dunas, estuários e recifes de corais”, ressalta o pesquisador.

Os riscos do El Niño para cada região costeira

Região Sul

Uma das regiões que mais preocupam os cientistas é o Sul do Brasil, que tem uma configuração favorável à ocorrência de chuvas intensas. Em 2024, as precipitações bateram recordes históricos e causaram estragos de enormes proporções.

“O El Niño favorece uma configuração de bloqueio atmosférico. Isso significa que as frentes frias, ao chegarem ao continente, encontram uma área de alta pressão que dificulta seu avanço. Muitas vezes, elas acabam desviando para o oceano ou permanecem estacionadas sobre a Região Sul”, diz o professor Micael Cecchini, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP).

O aumento de chuvas e a frequência de tempestades favorecem a ocorrência de enchentes, deslizamentos, erosão costeira, elevação do nível dos rios e sobrecarga dos sistemas de drenagem urbana. “Se as chuvas coincidirem com marés elevadas, o escoamento das águas para o oceano torna-se mais difícil, ampliando o risco de inundações nas cidades costeiras”, alerta Polette.

Região Norte e Nordeste

Em ambas as regiões, o cenário é contrário ao do Sul brasileiro. A principal preocupação diz respeito à diminuição de chuvas e ao aumento das temperaturas, fatores que ajudam a intensificar secas, queimadas, falta d’água e alterações em ecossistemas costeiros e marinhos.

As consequências podem prejudicar diretamente a pesca, a agricultura, o turismo e o modo de vida de comunidades tradicionais que dependem dos recursos naturais. “No Nordeste, soma-se ainda um fator de grande preocupação: o aquecimento das águas do oceano”, acrescenta o pesquisador do INPO. O aumento da temperatura põe em risco a saúde de corais e animais que vivem na costa local.

Região Sudeste

O Sudeste tende a sofrer com temperaturas mais altas, irregularidade das chuvas, ondas de calor mais frequentes, períodos de estiagem e eventos extremos concentrados.

“Nas áreas costeiras altamente urbanizadas, esses impactos são agravados pela impermeabilização do solo, pela ocupação de áreas suscetíveis a inundações, pela retirada da vegetação e por limitações nos sistemas de drenagem e saneamento”, aponta Polette.

Como o Brasil pode se preparar para os possíveis impactos climáticos

Ao contrário do aquecimento global, o El Niño é um fenômeno climático natural — por isso, não é possível impedir sua ocorrência. Entre as principais soluções para resistir aos efeitos dele, estão:

  • Investir em planejamento territorial e monitoramento climático;
  • Fortalecer sistemas de alerta precoce para que a população possa se proteger a tempo;
  • Adaptar infraestruturas em zonas costeiras a fim de protegê-las de eventos climáticos extremos;
  • Propor e colocar em prática novas medidas para a conservação dos ecossistemas naturais.

A avaliação dos especialistas é que o Brasil avançou na criação de soluções e se preparou, na medida do possível, para o aumento de eventos climáticos cada vez mais comuns no mundo. No entanto, ainda há limitações em planejamento urbano e infraestrutura, especialmente no âmbito municipal. “Mais do que responder às emergências, é necessário investir continuamente em prevenção e adaptação”, diz Polette.

“No caso do Brasil, temos muitos desafios porque somos bastante vulneráveis ao clima. Por outro lado, o país possui um sistema bastante robusto de monitoramento, como o Cemaden, que reúne informações sobre tipo de solo, relevo, regime de chuvas e áreas suscetíveis a desastres em praticamente todo o país. Na minha avaliação, o principal desafio hoje não é a falta de informação, mas o uso efetivo desses dados”, conclui Cecchini.