Cerrado é preparado para o fogo, mas incêndio frequente evita recuperação
Combinação de ar seco, ventos fortes e ação humana intensifica a propagação de queimadas no Cerrado, o segundo maior bioma do país

A combinação de biomassa rasteira altamente inflamável, baixos índices de umidade relativa do ar e ventos intensos transforma o Cerrado em um ecossistema extremamente propício à rápida expansão do fogo durante o período de seca.
O disparo dos incêndios ocorre pelo encontro do combustível vegetal com uma fonte de calor, que pode ter origem natural ou antrópica — intervenção do ser humano sobre o meio ambiente.
Enquanto o fogo natural costuma ser desencadeado por descargas elétricas no final da estação seca, as queimadas humanas ocorrem de forma desregulada ao longo de todo o ano, motivadas por negligência (bitucas de cigarro ou pedaços de vidro), acidentes agrícolas ou ação criminosa de desmatamento.
A arquitetura da vegetação campestre e savânica favorece a dinâmica do fogo rasteiro, que se move velozmente sobre a matéria orgânica seca acumulada no solo, conhecida como serapilheira.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Para a propagação, o que mais precisa para acontecer, além da flamabilidade do combustível, é o vento. Quando se tem vento, esse fogo é rasteiro e vai sendo arrastado”, explica a ecóloga Marina Hirota, diretora científica do Instituto Relva.
Segundo a pesquisadora, as elevadas temperaturas do inverno no Planalto Central reduzem ainda mais a umidade relativa do ar, ressecando a vegetação e tornando o ambiente vulnerável ao menor sinal de ignição.
Cerrado queima sozinho, mas ação humana impede regeneração
Embora as plantas nativas do bioma tenham desenvolvido adaptações evolutivas ao longo de milênios, como cascas espessas tipo cortiça e raízes profundas, a frequência desordenada dos incêndios provocados pelo homem impede a regeneração natural das espécies.
Além da destruição direta da flora e da fauna rasteira, as queimadas frequentes ameaçam a capacidade do bioma de atuar como regulador hídrico do país. O Cerrado abriga as nascentes de oito das 12 principais bacias hidrográficas brasileiras e integra o Aquífero Guarani, desempenhando papel crucial na recarga dos aquíferos através do sistema radicular de sua vegetação.
“O Cerrado é conhecido como o ‘berço das águas do Brasil’. As raízes profundas das árvores funcionam como calhas, descompactam o solo e auxiliam a recarga de água. Quando o fogo é frequente, ele compromete a vegetação e a capacidade do solo de exercer funções essenciais de infiltração e retenção”, destaca a bióloga Andrée de Ridder Vieira, presidente do Instituto Supereco.
A fragmentação do território provocada pela expansão agrícola sem planejamento sustentável amplia as áreas de contato entre lavouras e remanescentes nativos, favorecendo o alastramento das chamas e a degradação do solo.
Queimadas também impactam a fauna
Sem a presença de corredores ecológicos, a fauna local sofre impactos diretos. Filhotes, répteis, anfíbios e animais de menor mobilidade ficam encurralados e são vitimados pelas chamas ou pela fumaça. Os sobreviventes ainda enfrentam a escassez de alimento, água e abrigo, o que compromete a reprodução e a permanência das espécies na região.
Para conter os avanços dos grandes incêndios, especialistas defendem o fortalecimento do Manejo Integrado do Fogo (MIF). A estratégia prevê a realização de queimadas prescritas e controladas nos períodos adequados para treinar a vegetação e reduzir o acúmulo de biomassa seca, além da abertura de aceiros que funcionam como barreiras físicas.
O combate eficiente aos incêndios também exige a integração entre ferramentas de monitoramento em tempo real, como os dados de satélite do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e ações preventivas diretamente nos territórios.
A criação de redes de apoio e a educação ambiental junto a produtores rurais e comunidades locais são apontadas como medidas prioritárias para mudar a cultura da queima sem controle e garantir a preservação do ecossistema.



