Galinhas felizes? Bem-estar animal melhora a qualidade dos alimentos
Especialistas explicam como manejo animal adequado pode elevar qualidade, produtividade e reduzir perdas na produção de alimento no campo
atualizado
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Expressões como “ovos de galinhas felizes”, “leite de vacas bem cuidadas” ou carnes produzidas com foco no conforto animal têm ganhado espaço no mercado brasileiro. Embora pareçam apenas estratégias de marketing, o conceito por trás dessas mensagens tem base técnica: o bem-estar animal pode, sim, interferir de forma positiva na produção de alimentos quando aplicado de forma correta.
Na prática, isso significa oferecer aos animais condições adequadas de espaço, alimentação, água, temperatura, higiene, manejo e redução de estresse. Segundo especialistas, quando essas variáveis são respeitadas, há melhora nos índices produtivos, menor ocorrência de doenças e mais eficiência no sistema.
O que muda quando o animal é bem tratado
O zootecnista e extensionista rural Frederico Franco Bourroul, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater – DF), explica que o bem-estar animal está diretamente ligado à produtividade porque reduz fatores que atrapalham o desempenho.
“Quando o sistema oferece espaço adequado, boa ventilação, acesso correto à água e alimentação e menor exposição a patógenos, os animais tendem a adoecer menos e converter melhor os nutrientes em crescimento, leite, ovos ou carne”, afirma.
Em outras palavras, um animal saudável usa energia para produzir, e não para reagir ao estresse ou combater enfermidades. Ambientes superlotados, quentes demais ou mal ventilados costumam gerar queda no consumo de ração, irritabilidade, disputas e maior transmissão de doenças. Tudo isso impacta negativamente o resultado final.

Entre os fatores mais importantes está o conforto térmico. Cada espécie possui uma faixa de temperatura considerada ideal. Quando há frio ou calor excessivo, o metabolismo muda e a produção pode cair.
“No calor intenso, muitos animais comem menos. Com menor ingestão de alimento, há perda de peso, redução na produção de leite ou pior desempenho geral”, diz Bourroul.
Estruturas como sombra em pastagens, ventilação adequada, nebulizadores, galpões bem orientados em relação ao sol e pisos apropriados ajudam a reduzir o problema.
Liberdade de movimento também influencia
Outro ponto debatido atualmente é a liberdade de movimento. Sistemas muito restritivos tendem a elevar o estresse dos animais e favorecer lesões ou comportamentos agressivos.
Segundo o especialista, o equilíbrio é essencial. “Movimentação moderada e ambiente enriquecido costumam trazer benefícios. Já a restrição intensa pode aumentar mortalidade e doenças”, afirma.
Recentemente, uma granja de suínos de Patos de Minas (MG), se tornou a primeira do Brasil a receber a certificação de bem-estar animal da Produtor do Bem, selo voltado ao setor produtivo. O reconhecimento considera fases como gestação, maternidade, creche e terminação, além de critérios de ambiência, sanidade e manejo.
Um dos diferenciais citados foi o sistema “cobre-solta”, em que as fêmeas são inseminadas e depois alojadas em grupo, sem longos períodos em gaiolas individuais. Para a gestora agrícola da Auma Agronegócios, Lucimar Silva, o reconhecimento reforça uma visão estratégica de longo prazo.
“O bem-estar animal é um pilar fundamental dentro da nossa estratégia, pois está diretamente ligado à sustentabilidade, à eficiência produtiva e à qualidade dos alimentos”, afirma.
Como o bem-estar animal pode melhorar a produção
- Reduz estresse e agressividade entre os animais.
- Diminui risco de doenças e mortalidade.
- Melhora ganho de peso e conversão alimentar.
- Pode elevar a produção de leite e postura de ovos.
- Facilita manejo diário nas propriedades.
- Agrega valor comercial ao produto final.
O consumidor percebe isso?
Nos últimos anos, parte dos consumidores passou a observar mais a origem dos alimentos. Selos, rastreabilidade e práticas sustentáveis ganharam peso, especialmente entre públicos urbanos e empresas que compram em grande escala.
Apesar disso, o preço ainda segue como fator decisivo para boa parte das famílias brasileiras. “Existe maior atenção ao tema, mas o custo continua sendo central na compra. Mesmo assim, cresce o interesse por produtos ligados à sustentabilidade e ao bem-estar”, explica o zootecnista.
Segundo o especialista, o futuro da produção animal deve combinar tecnologia, rastreabilidade e melhores práticas de manejo. Sensores, monitoramento de temperatura, alimentação individualizada e estruturas mais eficientes tendem a avançar no campo.
Mais do que apelo emocional, o bem-estar animal vem sendo tratado como ferramenta de produtividade. Quando há planejamento técnico, o resultado pode aparecer tanto para o produtor quanto para o consumidor.
