Amazônia silenciosa: estudo tenta explicar por que aves estão sumindo

Pesquisa da Ufam investiga o declínio de aves em florestas tropicais intactas e acende alerta para os efeitos das mudanças climáticas

atualizado

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Philip Stouffer/LSU
Ave em cima do tronco de arvore
1 de 1 Ave em cima do tronco de arvore - Foto: Philip Stouffer/LSU

A Amazônia está cada vez mais silenciosa. Mesmo em áreas onde a floresta permanece de pé, pesquisadores investigam por que aves estão desaparecendo e deixando para trás um silêncio que pode indicar desequilíbrios profundos no maior bioma tropical do mundo. O fenômeno, associado aos efeitos das mudanças climáticas, tem sido comparado a uma possível nova “primavera silenciosa”.

O termo faz referência ao livro Silent Spring, publicado em 1962 pela bióloga Rachel Carson, que alertou para os impactos das atividades humanas sobre a biodiversidade. No contexto amazônico, a expressão aponta para uma perda menos visível do que o desmatamento: a redução gradual de aves mesmo em áreas aparentemente preservadas.

É esse fenômeno que uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), citada em fevereiro pela revista Science, busca compreender.

Segundo a bióloga Joana Rosar Corbellini, coordenadora do curso de Biomedicina do Centro Universitário de Pinhais (FAPI), a presença de árvores não significa, necessariamente, que o ecossistema esteja em equilíbrio.

“As aves dependem de condições ambientais específicas, como temperatura adequada, alta umidade e oferta constante de alimento. Esse silêncio crescente sugere que a floresta pode estar sofrendo alterações profundas e invisíveis a olho nu”, explica.

Além do desmatamento, fatores como aquecimento global, secas mais frequentes, alterações no regime de chuvas, incêndios florestais e mudanças no microclima da floresta podem afetar diretamente a sobrevivência das aves.

O calor extremo aumenta o gasto de energia desses animais para manter a temperatura corporal. Ao mesmo tempo, a seca reduz a disponibilidade de água, frutos e insetos, recursos essenciais para alimentação, reprodução e sobrevivência.

“Portanto, a falta de água desencadeia um efeito em cascata na floresta. Diminui a abundância de insetos e a produção de frutos, reduzindo a oferta de alimento para as aves. Isso ajuda a explicar por que mudanças climáticas e secas intensas podem levar ao declínio das populações, mesmo em áreas onde a vegetação permanece aparentemente preservada”, afirma Joana.

Sentinelas da floresta

Entre os grupos mais vulneráveis estão as aves insetívoras do sub-bosque, ou seja, aquelas que se alimentam de insetos e vivem próximas ao solo, em ambientes úmidos, sombreados e com condições bastante estáveis. Por terem hábitos especializados e menor capacidade de dispersão, essas espécies respondem rapidamente às alterações climáticas.

Para os especialistas, isso faz com que as aves funcionem como sentinelas ecológicas. O canto das aves indica a saúde do ecossistema.

Em ambientes equilibrados, a diversidade dos cantos reflete a abundância de espécies, a atividade reprodutiva e as interações ecológicas saudáveis. Quando esses sons diminuem, o fenômeno pode indicar queda populacional, menor reprodução e aumento do estresse ambiental.

“As aves funcionam como verdadeiras guardiãs da Amazônia, sendo responsáveis por espalhar sementes, polinizar plantas e controlar pragas. Sem elas, a floresta perde sua capacidade de se regenerar e de manter sua rica diversidade de espécies”, destaca Joana.

O biólogo Rafael Shinji Akiyama Kitamura, também da FAPI, reforça que a redução dessas populações pode provocar impactos em cadeia. A diminuição de aves frugívoras reduz a dispersão de sementes, enquanto a perda de aves insetívoras pode favorecer o aumento de pragas e insetos.

Além disso, outros animais também podem ser afetados. Mamíferos, répteis e predadores que se alimentam de aves passam a ter menos recursos disponíveis, o que compromete a estrutura da cadeia alimentar.

Sinal de alerta

O monitoramento das aves ainda é um desafio. A dimensão da Amazônia e a dificuldade de acesso a muitas áreas tornam insuficiente o acompanhamento em larga escala. Métodos como bioacústica, com gravadores capazes de captar sons da floresta, e monitoramento comunitário são apontados como ferramentas importantes para acompanhar as mudanças.

Entre as medidas de conservação mais urgentes estão a proteção de florestas primárias, a criação de corredores ecológicos, o combate ao fogo e ao desmatamento, além do envolvimento de comunidades locais na coleta de dados e vigilância ambiental.

Para o biólogo Kitamura, explicar o silêncio das aves ao público passa por uma imagem simples: a floresta funciona como uma grande orquestra. Cada ave representa um instrumento. Quando elas deixam de cantar, não há apenas ausência de som, mas um desarranjo de toda a harmonia ecológica.

“O silêncio dessas aves pode comprometer toda a estrutura funcional da maior floresta do mundo, provocando falhas que, com o tempo, se tornam irreversíveis”, afirma.

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