Biólogos encontram quatro novos filhotes de ave raríssima em Alagoas
População de choquinha-de-Alagoas tem cerca de 12 indivíduos conhecidos e segue criticamente ameaçada mesmo após novo registro de reprodução
atualizado
Compartilhar notícia

O registro de quatro novos filhotes da choquinha-de-Alagoas (Myrmotherula snowi) traz um raro sinal de reprodução para uma das aves mais ameaçadas do mundo. A espécie vive apenas em um fragmento de Mata Atlântica no Nordeste e soma hoje apenas 12 indivíduos conhecidos.
A identificação foi feita pela equipe de campo da Save Brasil, liderada pelo ornitólogo Arthur Barbosa de Andrade, durante monitoramento realizado entre dezembro e janeiro na Estação Ecológica de Murici, em Alagoas, área considerada o último refúgio confirmado da ave.
Apesar da reprodução recente, especialistas avaliam que ainda é cedo para falar em recuperação populacional, já que o número total de indivíduos segue extremamente baixo e a espécie permanece sob alto risco.
Segundo o biólogo Edson Ribeiro, coordenador de projetos da Save Brasil, a população permanece extremamente pequena. “Existem apenas oito indivíduos adultos registrados, formando quatro casais, todos restritos à mesma área”, diz.
Habitat reduzido mantém espécie sob risco
A choquinha-de-Alagoas sobrevive em um único fragmento florestal cercado por pastagens, o que aumenta a vulnerabilidade da espécie. Qualquer alteração ambiental pode afetar toda a população.
“O risco é grande porque todos os ovos estão praticamente na mesma cesta. Um problema climático, doença ou alteração no ambiente pode comprometer a sobrevivência da espécie”, afirma o biólogo.
A situação está diretamente ligada à perda histórica da Mata Atlântica no Nordeste. Dados da Fundação SOS Mata Atlântica indicam que restam cerca de 12% da cobertura original do bioma no país, e ao norte do Rio São Francisco a redução chega a aproximadamente 95%. A substituição da floresta por pastagens e canaviais fragmentou habitats e isolou diversas espécies.
O processo já levou ao desaparecimento regional de outras aves. Edson lembra que espécies como o limpa-folha-do-Nordeste e o trepador-do-Nordeste não resistiram à perda de habitat.
O que pode ajudar na conservação
Edson aponta que a principal medida para evitar novas extinções é proteger integralmente os remanescentes florestais e ampliar áreas de vegetação nativa. A restauração ambiental pode criar zonas de amortecimento e melhorar as condições ecológicas para espécies sensíveis.
“A proteção dos fragmentos existentes é fundamental. Depois disso, ações de restauração e manejo, como proteção de ninhos e controle de predadores, podem aumentar o sucesso reprodutivo”, explica.
Em alguns casos também são estudadas estratégias de reprodução sob cuidados humanos, com a intenção de reforçar populações naturais no futuro. No entanto, essa alternativa costuma ser complexa, principalmente para aves insetívoras como a choquinha-de-Alagoas.
A ameaça à biodiversidade não se restringe a essa espécie. Relatórios internacionais indicam que mais de um milhão de espécies podem estar ameaçadas globalmente. O avanço das extinções costuma começar com desaparecimentos locais, evoluir para perdas regionais e, em casos extremos, levar à extinção total.
O biólogo afirma que a sociedade também tem papel relevante nesse cenário. “Valorizar unidades de conservação, apoiar a proteção das florestas e até iniciativas simples de plantio e recuperação ambiental já contribuem para manter a biodiversidade”, afirma Edson.
Mesmo com o registro de novos filhotes, a choquinha-de-Alagoas segue entre as espécies mais ameaçadas do planeta. A continuidade do monitoramento e das ações de conservação será decisiva para definir se a ave conseguirá sobreviver nos próximos anos.




