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As escolas de samba do Grupo Especial do carnaval do Rio chegam esta noite à Sapucaí como sobreviventes de um ano difícil Ainda assim, o samba mandou avisar: a crise não vai passar na avenida. As agremiações prometem superar as dificuldades com custos mais baixos e criatividade.

A prefeitura reduziu a verba de cada escola para o desfile de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão – e as agremiações ameaçaram cancelar a festa. Os patrocínios minguaram, e o Ministério do Trabalho fechou os barracões por um mês, para adequação a normas de segurança. Foi preciso ainda redobrar o cuidado com carros alegóricos, após acidentes em 2017 que mataram uma radialista e feriram mais de 30 pessoas.

Para produzir alegorias e fantasias, cada escola teve R$ 4 milhões, soma da subvenção municipal e das receitas com ingressos com direitos de transmissão pagos pela TV Globo. É menos da metade do que já receberam em anos de bonança, quando o Estado do Rio e a Petrobrás as apoiavam generosamente.

Dirigentes acreditam, porém, que a falta de dinheiro pode tornar a disputa mais igual, com menor peso do poder econômico. A busca por insumos mais baratos e de mesmo efeito – tecidos, pedras e plumas -, que já vinha de anos anteriores, virou necessidade. Com a baixa nos estoques no comércio carioca, por causa das dificuldades econômicas, as equipes recorreram ao mercado paulista, mais variado. Cidades do interior, como Marília e Americana, entraram no roteiro da matéria-prima de menor custo.

O reaproveitamento de materiais também barateou custos. Para contornar as dificuldades com os barracões inoperantes, no fim de 2017, o trabalho foi levado para a casa de costureiras e artesãos. Apesar dos percalços, o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, revelação dos anos 2010, prevê “o melhor carnaval de todos os tempos”. “Sempre trabalhei na dificuldade, então o que a Mangueira dispõe hoje é um parque de diversões para mim.”

Vieira fez da penúria seu enredo, Com Dinheiro ou Sem Dinheiro, Eu Brinco. É uma crítica ao que considera falta de atenção do prefeito Marcelo Crivella (PRB) à folia. “Ter dinheiro e usar tecnologia não determina a qualidade do carnaval. Trabalho num esquema de guerrilha, me sinto mais criativo.”

Desconto à vista.
A Mocidade, atual campeã com a Portela, não conseguiu patrocínio para seu enredo sobre a Índia e poupou ao pagar à vista fornecedores paulistas. O Paraíso do Tuiuti, com desfile sobre os resquícios da escravidão, estará reduzida em 400 componentes. A São Clemente, que homenageia os 200 anos da Escola Nacional de Belas Artes, manteve até poucos dias liquidação de fantasias. Anticrise, o Cassino do Chacrinha da Grande Rio vai bradar: “O show não terminou”.