Weintraub vira “problemão”, mas Bolsonaro tenta evitar guerra aberta

Ex-ministro tenta plantar dissidência na base bolsonarista, mas presidente espera recuperar radicais revoltados em eventual segundo turno

atualizado 20/01/2022 7:57

abraço de weintraub em BolsonaroReprodução

O presidente Jair Bolsonaro (PL) está indignado com a tentativa de rebelião em sua base que tem como protagonistas dois ex-ministros de seu governo, Ernesto Araújo e Abraham Weintraub. Contrariando seu estilo ruidoso, porém, Bolsonaro ainda não levou essa insatisfação para o debate público, seja nas redes sociais ou no cercadinho do Palácio da Alvorada, onde costuma dar seus recados e criticar opositores.

A avaliação de parte dos conselheiros do presidente é de que não vale a pena partir para uma guerra aberta com antigos aliados, sob pena de consolidar um processo de erosão da base radicalizada, que se viu sem espaço (administrativo e eleitoral) após a aliança de Bolsonaro com o Centrão.

Esses conselheiros estão conseguindo segurar o ímpeto do chefe do Executivo de criticar a campanha de Weintraub, que virou “problemão” e já é comparado a “traidores” como os também ex-ministros Henrique Mandetta, Alberto Santos Cruz e Sergio Moro.

Até o fechamento desta reportagem, havia um acordo entre o presidente e seus aliados mais próximos de ignorar Weintraub e sua turma por enquanto, num cálculo eleitoral que mira um eventual segundo turno do pleito presidencial, quando Bolsonaro acredita que pode reconquistar os radicais que hoje estão debandando.

O acordo vem sendo cumprido inclusive pelo vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos), que não está respondendo às cobranças e provocações nas redes sociais, mas a temperatura está esquentando tanto que é difícil prever uma trégua duradoura.

Outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), já reclamou do comportamento supostamente robótico dos perfis pró-Weintraub que estão lhe pressionando.

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Bolsonaro nunca abriu brecha para debate sobre sua indicação para a disputa do governo de São Paulo. Quer lançar seu ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e já trabalha na montagem da chapa. Ignorando pedidos para se contentar com um cargo “menor”, como o de deputado federal, Weintraub está circulando pelo estado de São Paulo e tentando viabilizar uma candidatura alternativa ao Palácio dos Bandeirantes.

Nessa pré-campanha, o ex-ministro da Educação evita críticas diretas ao ex-chefe, mas detona suas escolhas políticas. “O Centrão é que está batendo nos conservadores com mentiras”, reclamou Weintraub em live esta semana, que também contou com o ex-chanceler Ernesto Araújo (ele acusou partidos do Centrão de estarem se deixando usar pela ditadura comunista chinesa) e o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

“A gente não gosta do Centrão, e isso ficou muito claro. Só que eu acho que o presidente tomou a decisão estratégica que ele acreditava ser a mais eficiente. Naquele momento, a ameaça era muito clara: eles iriam iniciar o processo de impeachment”, insistiu Weintraub no dia seguinte, em entrevista a uma rádio simpática ao governo.

Distanciamento

Weintraub foi um dos mais ruidosos membros da ala mais radicalizada ideologicamente do governo, composta por seguidores do guru extremista Olavo de Carvalho, e deixou o cargo de ministro em junho de 2020, quando circulava nos bastidores a ameaça de que ele poderia ser preso por ter insultado ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu, por mim, colocava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF”, disse ele em reunião ministerial que acabou se tornando pública por ter entrado em processo no qual Sergio Moro acusa o presidente de tentar interferir na PF para proteger familiares investigados.

Mandado aos Estados Unidos, o ex-ministro assumiu cargo de diretor no Banco Mundial por indicação do Brasil e desfrutou de um salário anual de US$ 258,5 mil (cerca de R$ 117 mil por mês na cotação atual). Desde então, porém, se perdeu a relação entre Weintraub e o clã Bolsonaro, e o ex-ministro soube que, além de não ter espaço nos planos eleitorais do presidente, não terá o contrato (que acaba em outubro deste ano) renovado.

Para pessoas próximas ao presidente, essas duas portas fechadas inflamam mais as palavras de Weintraub contra o governo do que as diferenças ideológicas que ele tem alegado para se colocar como “verdadeiro conservador” e tentar rachar o eleitorado fiel ao ex-chefe.

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