Veterinário, diretor de imunizações da Saúde prioriza sua categoria na vacina

Laurício Monteiro Cruz assinou ofício no qual inclui médicos-veterinários entre os que terão prioridade na imunização contra a Covid-19

atualizado 20/01/2021 23:11

CRMV/Divulgação

O diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Laurício Monteiro Cruz, resolveu privilegiar sua categoria profissional na fila de espera da vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Veterinário, Cruz assinou um ofício, no último dia 18, incluindo seus pares entre os que terão prioridade na imunização contra o coronavírus – mesmo com a escassez de doses da vacina.

As informações são da revista Piauí, que, em reportagem publicada nesta quarta-feira (20/1), revela: graças à canetada de Laurício Cruz, os veterinários estão na lista dos primeiros a serem vacinados no país, ao lado de médicos e enfermeiros da linha de frente do combate à pandemia.

Além de trabalhar no ministério, o diretor de imunizações preside o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Distrito Federal, órgão responsável por fiscalizar o setor e expedir carteiras profissionais.

No oficío, Cruz alega que “os médicos-veterinários atuam em diversas frentes e estão inseridos nas clínicas, hospitais e defesa sanitária, desempenhando atividades que vão desde a gestão até a vigilância de zoonoses, vigilância ambiental em saúde, epidemiológica e sanitária, o que os torna mais suscetíveis à doença”.

Ele solicita que “todos os postos dos municípios, estados e do Distrito Federal disponibilizem a vacina para veterinários”. Para ter acesso às doses, explica o diretor, basta que eles apresentem sua carteira de identidade profissional – mesmo que não trabalhem na linha de frente na guerra contra a Covid-19.

Resposta ao CFMV

De acordo com a Piauí, o ofício foi uma resposta ao Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), que no dia 11 de janeiro havia pedido ao Ministério da Saúde que informasse se veterinários e seus “respectivos técnicos e auxiliares” integravam os grupos prioritários da vacinação contra a Covid-19.

Em caso afirmativo, a entidade queria saber como eles poderiam comprovar seu vínculo com o trabalho hospitalar, “visto que os estabelecimentos veterinários não estão inseridos no rol do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde”.

Ao incluir os veterinários no começo da fila da vacinação, Cruz citou um informe do Ministério da Saúde, publicado no mesmo dia 18, em que são detalhados os grupos prioritários da campanha nacional de imunização.

O documento é baseado na Resolução nº 287 de 1998, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que considera que categorias como enfermeiros, fisioterapeutas e veterinários são profissionais de saúde como quaisquer outros. Teriam, portanto, a mesma prioridade que os médicos na hora de serem vacinados.

Profissionais de nível superior

O CNS considera como trabalhadores de saúde catorze categorias profissionais de nível superior. A lista contempla funcionários de recepção, segurança, limpeza, transporte de pacientes, além daqueles que muitas vezes trabalham na informalidade, como cuidadores de idosos e doulas. Levando em conta apenas dez do total de catorze categorias, trata-se de 4,4 milhões de brasileiros.

O cálculo foi feito pelo professor Mário Scheffer, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, em uma nota técnica publicada pela Rede de Pesquisa Solidária.

“Se incluirmos todos esses grupos, os formais e os informais, serão muito mais de 5 milhões de pessoas”, observou Scheffer. Além disso, são necessárias duas doses para que a pessoa fique imunizada.

“A meta, ao final, tem que ser a cobertura vacinal em massa de todos eles, mas não temos vacina para isso. Então é preciso hierarquizar”, explica o especialista. “A prioridade absoluta, sem discussão, é daqueles que trabalham com pacientes de Covid internados. Em seguida, aqueles que cobrem serviços de urgência e emergência, maternidade e atenção primária, que fazem triagem e encaminhamento de pacientes suspeitos, incluindo o pessoal de apoio”.

Quantitativo de doses

Questionado pela Piauí a respeito da decisão de incluir os veterinários entre os grupos com prioridade para vacinação, o Ministério da Saúde afirmou apenas que “a programação para o início da imunização de cada fase depende do quantitativo de doses entregues pelos laboratórios fornecedores de vacinas aprovadas pela Anvisa. Portanto, este cronograma deverá ser constantemente atualizado, uma vez que dependerá de vacinas disponíveis”.

A pasta disse ainda que orienta os entes federados a seguirem o plano de operacionalização, mas que “o SUS é tripartite e, portanto, estados e municípios têm autonomia para estabelecerem a ordem de vacinação dentro das peculiaridades de cada localidade de modo que melhor atenda a população”.

Combate direto

Já o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) divulgou nota para contestar o teor da reportagem. Segundo a instituição, os médicos-veterinários são profissionais de saúde pública em diversas atuações e com atendimento direto à população, como integrantes das equipes de atenção básica à saúde de diversos municípios.

Participam de equipes no combate direto à Covid-19, atendendo à convocação do Ministério da Saúde para atuar no programa O Brasil Conta Comigo, ação realizada em abril de 2020, também antes da nomeação do atual diretor do DEIDT.

O CFMV ressaltam ainda, que os médicos-veterinários integram equipes de trabalho na defesa e vigilância sanitária, inspeciona os produtos de origem animal consumidos pela população de forma a preservar a saúde das pessoas.

“Também estão nas vigilâncias epidemiológicas, vigilâncias ambientais e Centros de Controles de Zoonoses monitorando e controlando todas as doenças zoonóticas (transmitidas dos animais para os homens), como dengue, chikungunya, raiva e leishmaniose. São atividades que, inclusive, demandam visitas regulares aos domicílios, por meio dos Núcleos Ampliados de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB)”.

“Todos são casos em que os médicos-veterinários estão diretamente expostos diante do cenário de pandemia”, diz o Conselho. Veja a íntegra da nota do CFMV aqui.

Últimas notícias