Sem candidata mulher ao governo, SP deve repetir disparidade histórica

Desde a redemocratização, nenhuma eleição ao governo de SP teve mais de uma mulher candidata; em algumas, não houve sequer uma

atualizado 20/05/2022 20:48

Fachada da sede do governo paulista, o Palácio dos Bandeirantes. Vê-se em primeiro plano um jardim e adiante a estrutura - MetrópolesDivulgação

São Paulo – Em 1982, ocorreram as primeiras eleições diretas para o governo de São Paulo após o período da ditadura militar. Foi somente em 1990, entretanto, que o estado teve sua primeira candidatura feminina para o cargo. De lá para cá, nunca houve mais de uma mulher concorrendo ao cargo de governadora por pleito – e a eleição de 2022 se encaminha para um cenário sem nenhuma candidata.

Até agora, 10 nomes se apresentaram como pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes, todos homens. Ao mesmo tempo, alguns deles buscam uma vice mulher justamente para conquistar o voto feminino. Em São Paulo, as mulheres representam 51% da população.

Para especialistas ouvidos pelo Metrópoles, esses dados indicam que os partidos não buscam uma paridade de gênero nem em seus quadros internos nem nas candidaturas que lançam, e avaliam que reservar cadeiras para mulheres nas executivas das siglas e garantir vagas em cargos legislativos poderia ser o começo de uma mudança.

Na visão da cientista política da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Luciana Santana, “a maior barreira que as mulheres encontram são os seus próprios partidos políticos”, que, segundo ela, não investem nem dão visibilidade às mulheres em cargos estratégicos. 

“Há uma grande busca de mulheres filiadas para participar das chapas proporcionais, mas, quando vemos os nomes estratégicos e que efetivamente ganharão maior investimento dos partidos para que tenham maiores chances eleitorais, a maioria é homem. São os próprios partidos que criam essas barreiras”, analisa.

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O cientista político José Álvaro Moisés, coordenador do Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia do Instituto de Estudos Avançados da USP, acredita que essa falta de candidaturas femininas em um país e um estado com maioria de mulheres “indica que a cultura política do país não valoriza a participação feminina”.

Ele explica que esse fato precisa ser entendido em um contexto maior, que vem desde a proclamação da República no Brasil, no qual a participação das mulheres na política sempre foi relegada. Foi somente em 1932 que essa parte da população conquistou o direito ao voto, e, depois disso, pouco foi feito para possibilitar sua entrada das mulheres como candidatas.

“Coisas básicas são criticadas, como as cotas de 30% dos recursos para mulheres. E só o fato de você ter necessidade de criar uma cota dessa natureza, para compartilhar recursos que são fundamentais em qualquer campanha eleitoral, é uma demonstração de como as mulheres estão fora do jogo. Além disso, muito raramente elas aparecem na direção partidária”, avalia Moisés.

Por lei, 30% das candidaturas dos partidos ou coligações para eleições proporcionais (deputados federal e estadual e vereador) devem ser para mulheres. O mesmo percentual se aplica ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (conhecido como fundo eleitoral) e o tempo de propaganda em TV e rádio. Para eleições majoritárias, como governador e presidente, não existe essa cota.

Já na composição partidária, são as próprias siglas que decidem o comando e a composição das executivas e diretores. Dos 32 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas seis possuem presidentes mulheres.

O PT, com a deputada federal Gleisi Hoffmann; o Podemos, com Renata Abreu; a Rede Sustentabilidade, com Heloísa Helena; o PCdoB, com Luciana Santos; o PRTB, com Aldinea Fidelix; e o PMB, com Suêd Haidar Nogueira.

Uma mulher – ou nenhuma – por eleição

Sonia Ishikawa disputou o cargo de governadora em São Paulo em 1990, pelo Partido Liberal Humanista (PHS), mas não teve votação expressiva. Na eleição seguinte, em 1994, nenhuma mulher disputou.

Em 1998, foi a vez de Marta Suplicy (na época no PT) ser a única mulher a concorrer, e com bom resultado. Em um pleito acirrado, ela ficou em terceiro lugar, com 22,51% dos votos. O segundo lugar, Mário Covas (PSDB), ficou com 22,95% e foi para o segundo turno contra Paulo Maluf. O tucano acabou eleito.

Na eleição de 2002, Anaí Caproni (PCO) se mostrou a única candidata a concorrer, e não chegou a nem 1% dos votos. Em 2006 e 2010, também foi a única mulher que disputou o cargo e repetiu os resultados inexpressivos.

Na disputa de 2014, não houve nenhuma candidatura feminina para o governo de São Paulo. Em 2018, existiu a possibilidade de duas mulheres postulantes ao cargo de governadora, mas, ao fim, só uma foi de fato candidata: a Professora Lisete, do PSol.

O PCO tentou lançar Lilian Miranda, mas ela teve seu registro de candidatura indeferido pela Justiça Eleitoral por falta de documentos de seu vice. Antes, ela era candidata a vice-governadora na chapa de Edson Dorta, que também teve seu registro indeferido pela Justiça por falhas na prestação de contas do partido.

Neste ano, ainda não existe nenhuma pré-candidata ao governo paulista. Há chances de isso mudar, já que, por lei, as convenções partidárias poderão ocorrer entre 20 de julho e 15 de agosto, e as candidaturas apresentadas à Justiça Eleitoral valem neste mesmo prazo. Mas, como a maioria dos partidos já definiu seus nomes, a probabilidade é baixa.

Vices

De olho nessa fatia expressiva do eleitorado, alguns pré-candidatos já visam vices mulheres para compor suas chapas. É o caso do atual governador Rodrigo Garcia (PSDB), que já comentou o desejo com aliados. Ainda está em negociação se a indicação ficará com os tucanos, em uma “chapa pura”, ou se será delegada ao MDB e ao União Brasil, legendas que caminham juntas no pleito estadual.

Da mesma maneira, o pré-candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve apostar em uma vice mulher, sendo a deputada Rosana Valle, filiada ao PL em abril, um dos nomes mais cotados.

Setores do PT de São Paulo também já indicaram que seria ideal Fernando Haddad (PT) ter uma vice mulher – a ex-ministra Marina Silva (Rede) seria o “nome dos sonhos”, mas membros do partido admitem que a dificuldade é grande. A composição da chapa, porém, depende de acordos com outros partidos como PSol, Rede, PCdoB e PV, que vão ajudar a construir também o nome para o Senado.

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