Espremer espinhas, retirar as cascas de ferimentos em cicatrização e coçar picadas de mosquito são atos corriqueiros, que todo mundo já fez algum dia. No entanto, quando essa mania começa a se tornar frequente e passa a causar danos à pele, pode virar um transtorno: a dermatilomania.

O skin picking, também chamado dermatotilexomania ou dermatilomania, é popularmente conhecido como a “mania de cutucar a pele”. Trata-se de uma compulsão em tocar, coçar, arranhar, limpar ou “fuçar” irregularidades no tecido cutâneo até formar lesões que, em muitas situações, se tornam graves. As pessoas que sofrem com esse transtorno geralmente usam objetos pontiagudos, dentes e unhas para cutucar a área até causar ferimentos.

Quem enfrenta o problema dificilmente sabe que ele possui nome e tratamento. Isso ocorre porque, no Brasil, não há muitos profissionais na área da psicologia e da dermatologia especializados no assunto. Logo, a divulgação do transtorno é insuficiente para as pessoas entenderem a gravidade da situação.


Causas 
A caracterização do transtorno obsessivo geralmente começa com uma ferida na pele, que a pessoa coça repetidas vezes, sem deixar cicatrizar. Com o tempo, ocorre a sensação localizada de coceira ou necessidade de se “cutucar”. O skin picking costuma se manifestar quando o indivíduo está ansioso.

Em situações de ansiedade ou estresse, essas escoriações passam a ser uma válvula de escape para a pessoa aliviar as tensões, concentrando-se em mexer no local – o que, para quem tem a compulsão, desencadeia uma sensação prazerosa.

As causas da dermatilomania estão associadas ao Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), onde os pacientes tornam-se obcecados por hábitos repetitivos. Um agravante desse transtorno é a ansiedade, que faz com que os sintomas piorem"
Crhistienne Mileyde, psicóloga CRP 17/ 3709

As primeiras memórias relacionadas à dermatilomania, para Helena Weidman, 24 anos, vítima do transtorno, datam de quando ela tinha entre 7 e 8 anos de idade. Ela se recorda de estar na escola, sentada em sua carteira, coçando o braço e arrancando a casquinha que se formou ali depois de ela ser picada por um mosquito. A estudante de Estética e Cosmética também associa o início da compulsão à ansiedade que sofria nessa época.

“O mais difícil era sequer saber explicar o que eu tinha. Sabia que era eu quem fazia aquilo, que coçava, arrancava a pele e tinha um prazer incompreensível de ver sangrar. Mas como poderia explicar isso para os outros?”, relata Helena. “Tinha a compulsão de me machucar, e o fazia incontrolavelmente. Mas, logo em seguida, eu me martirizava por ter feito tudo aquilo. E, aí, me machucava ainda mais, como forma de punição”, detalha.

Tratamento
Segundo a psicóloga Crhistienne Mileyde CRP 17/ 3709, a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é a linha psicoterápica com mais evidência científica de eficácia para tratamento do transtorno obsessivo compulsivo relacionado ao transtorno de escoriação. O processo é focado nas características de comportamentos repetitivos no corpo dos pacientes. “Ela vem apresentando bons resultados, sendo a mais indicada nesses casos”, explica.

No entanto, a especialista adverte que raramente os indivíduos com esse transtorno buscam tratamento psiquiátrico, psicológico ou dermatológico. A resistência ocorre devido ao constrangimento social, ao desconhecimento sobre soluções médicas viáveis e, até mesmo, à crença de que o comportamento não é prejudicial à saúde.

Tabu
Os “dermatilomaníacos”, como costumam ser chamadas as pessoas com a compulsão, passam por momentos difíceis. As cicatrizes causadas por seus atos são motivo de constrangimento e, na maioria das vezes, de exclusão social.

A aceitação do próprio corpo é uma das principais dificuldades enfrentadas pelas pessoas que sofrem com o transtorno. Elas passam a usar calças e camisas de mangas longas, mesmo no calor intenso, para que as cicatrizes não sejam notadas, recorrem à maquiagem para cobrir os machucados e abrem mão de ir à praia ou fazer atividades que envolvam a exposição do corpo.

Como a maior parte dos acometidos são do sexo feminino, as dificuldades para esconder as escoriações são ainda maiores. Usar short, saia e vestidos está fora de cogitação. E, quando o fazem, os olhares que recebem das outras pessoas são motivo de vergonha. Nos casos mais crônicos, os afetados pelo transtorno abandonam o emprego, terminam relacionamentos e chegam a desenvolver depressão.

“Antes do psiquiatra, eu fui levada a outros profissionais em busca de uma solução pra todos aqueles machucados no meu corpo. Fiz diversos ‘tratamentos para o problema’. Seria uma alergia? Uma infecção de pele? Uma bactéria? Falta de Deus? Todo mundo tinha uma receita caseira para ensinar: usar sabonete de enxofre, tomar banho de lama, passar babosa, orar”, relata Helena Weidman. “Eu sempre mentia para os outros e para mim mesma, dizendo que realmente tinha algum tipo de alergia ou que havia me machucado. ‘Mas de novo?’, ‘Você apanhou’?, perguntavam os ‘amiguinhos’ na infância e na adolescência”, diz.

Outro problema é a forma com que os familiares reagem ao saber da escoriação compulsiva. Para quem não sofre com a dermatilomania, a resposta para o fim dos problemas é simples: “Pare de coçar, pare de arrancar”. Não é fácil como parece, e, segundo a psicóloga Crhistienne Mileyde, frases como essas podem fazer a compulsão aumentar.

Por isso, é importante que a dermatilomania seja abordada. Ao compreender melhor o transtorno e suas possíveis causas, torna-se mais fácil conviver com o transtorno, tanto para o paciente quanto para os familiares.

Aceitação
Felizmente, existem os casos de pessoas que conseguem aceitar o corpo como ele é: com manchinhas, cicatrizes e identidade própria. É o que afirma a estudante de Comunicação Social, Clara Dantas, de 22 anos. Ela protagonizou um vídeo produzido pela fotógrafa Beatriz Leite, no qual relata sua experiência com a dermatilomania e como lida com o transtorno (veja abaixo).

Rede de apoio
Se você tem essa compulsão ou conhece alguém que luta contra a dermatilomania, não se sinta só. No Facebook há um grupo onde os pacientes relatam suas histórias e sugerem formas de lidar com a situação. A comunidade se chama Dermatilomania e Skin Picking Brasil e somente deve procurá-la quem, realmente, precisar de apoio.