Com UTIs lotadas e nova cepa do coronavírus, Região Norte teme colapso generalizado na saúde

Acre, Pará e Amapá são os únicos estados da região que ainda não sofrem com lotação máxima de UTIs para Covid-19. Doença avança velozmente

atualizado 28/01/2021 8:08

Fotos Hugo Barreto/Metrópoles

Após o Amazonas sofrer com o colapso da rede de saúde, os outros estados da Região Norte do país também externam preocupação com o crescimento vertiginoso no número de casos do novo coronavírus entre seus moradores. Com o avanço da doença na região, cresce também o número de hospitalizações de pacientes da Covid-19. Dos sete estados, apenas três ainda possuem leitos para internação disponíveis.

Segundo dados divulgados pelas secretarias estaduais de Saúde, Rondônia, Tocantins, Roraima e Amazonas já não possuem mais leitos vagos para internações em unidades de terapia intensiva (UTI) destinadas exclusivamente para pacientes do vírus. Os outros estados – Acre, Pará e Amapá – apresentam taxa ocupação preocupante, acima de 70%, conforme atualizações mais recentes.

A possibilidade de um colapso generalizado na região tem preocupado as autoridades sanitárias, que se desdobram para garantir insumos e leitos disponíveis para o atendimento da população.

Em alguns casos mais críticos, pacientes estão sendo transferidos para outras localidades do país. No Amazonas, por exemplo, foram 302 transferidos para hospitais de outros estados. Já o governo de Rondônia, transferiu, desde o início do ano, 26 pacientes, dos quais quatro para Cuiabá (MT), 13 para Curitiba (PR) e nove para Porto Alegre (RS).

O Norte do Brasil contabilizava, até essa quarta-feira (27/1), 998.590 pessoas infectadas pelo novo coronavírus e 21.373 mortes. Os dados são do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). 

O estado mais impactado pela Covid-19 da Região Norte é o Pará, que soma 323.290 infecções e 7.552 mortes. Amazonas, no entanto, é o estado com mais óbitos: são 7.560 de um total de 257.606 infectados pelo vírus. Rondônia vem logo atrás, com 121.005 casos e 2.167 mortes.

Segundo a última atualização, Tocantins registrou 100.709 moradores contaminados e 1.359 não resistiram à doença. O Amapá vem na sequência, com 75.940 infectados e um total de 1.040 mortos, seguido de Roraima (72.621 casos e 837 mortes) e Acre (47.119 contaminações e 858 óbitos).

Manaus (AM) ainda é o município, contudo, mais impactado pelo avanço da pandemia. Não à toa, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, visita a capital do Amazonas para auxiliar em demandas relacionadas ao impacto causado pelo crescimento de casos. Faltam médicos, leitos e insumos.

Nessa quarta-feira (26/1), o chefe da pasta declarou que deve transferir, pelo menos, 1,5 mil pacientes internados por complicações devido à Covid-19 em Manaus, para outros estados. A proposta inicial do governo era de que o número fosse mantido em, no máximo, 235 indivíduos.

“Partimos pela remoção inicialmente para hospitais federais e agora para hospitais do SUS, de estados que estão se oferecendo para receber os amazonenses que precisam ser tratados. Já tiramos 300 pessoas em aviões da Força Aérea, e nosso objetivo é chegar a em torno de 1,5 mil pessoas removidas”, reforçou o ministro.

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Vírus mutado

A explosão de internações no sistema de saúde amazonense resulta de uma nova variante do novo coronavírus, segundo mostra análise preliminar feita por pesquisadores brasileiros e britânicos.

A partir do sequenciamento genético do vírus coletado em exames de pacientes infectados na capital amazonense, os cientistas verificaram que, até novembro, não havia registro da cepa P.1 entre as amostras analisadas. Já no mês de dezembro, 52,2% dos genomas sequenciados eram da nova variante. Em janeiro, esse índice passou para 85,4%.

Fechamento de fronteiras

A proximidade entre os estados ligou o alerta para a possibilidade de transmissão da nova cepa do vírus. Na noite de terça-feira (26/1), o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), pediu ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o apoio da União para o imediato fechamento das fronteiras e divisas do estado. Cameli afirma estar apreensivo com o avanço da nova variante.

O Acre faz fronteira com Bolívia e Peru, e divisa com Amazonas e Rondônia. Cameli conversou com o chanceler brasileiro sobre a grave situação enfrentada  nos estados vizinhos. Segundo o gestor, o principal objetivo da medida restritiva é evitar um possível colapso na rede pública de Saúde acreana.

“Infelizmente, os nossos vizinhos estão passando por momentos difíceis e estamos fazendo tudo que é possível para evitar que isso também aconteça no Acre. Por isso, pedi ajuda do ministro Ernesto Araújo para que possamos fechar nossas fronteiras até que essa situação amenize. Nossa principal prioridade é salvar vidas e continuaremos com esse mesmo empenho até o último dia dessa pandemia”, pontuou Cameli.

O governador também esteve, nessa quarta-feira (27/1), no Instituto Butantan, em São Paulo, para uma visita técnica. “[O objetivo dessa visita é para] Pedir apoio técnico para que a gente possa detectar as medidas que temos que tomar para proteger a nossa população. Não é só para pedir apoio em mais doses de vacinas. A gente quer evitar que o pior aconteça no nosso estado”, ponderou.

Ajuda parlamentar

Parlamentares do Congresso Nacional também cobram ações rápidas e efetivas na Região Norte para evitar novos colapsos na saúde. O líder do Republicanos no Senado Federal, Mecias de Jesus, afirmou que é preciso um esforço conjunto do Executivo local, federal e municipal para evitar “uma tragédia ainda maior” em Roraima. O senador enviou um ofício a Pazuello, segundo ele, “reiterando o pedido de socorro”.

O senador defende que a situação do estado “está igual Manaus”. “Precisamos de UTIs, médicos e oxigênio. A situação está insustentável. O governo federal vai precisar transportar nossos pacientes graves para outros estados”, publicou em seu Twitter.

O senador Telmário Mota (Pro-RR), também eleito por Roraima, enviou um ofício ao ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, solicitando colaboração do país vizinho para fornecimento de cilindros de oxigênio.

Segundo o senador, o Hospital Geral de Roraima, único destinado para internações de casos graves da Covid-19 em todo o estado, apresenta lotação máxima dos leitos de unidade de terapia intensivas (UTI).

O baixo estoque de oxigênio só dura mais uma semana, conforme informado pelo parlamentar. “Não podemos esperar que aconteça em Roraima o mesmo que ocorreu no Amazonas, pacientes morrendo por falta de oxigênio. Isso é falta de compromisso com a vida. Não bastasse esse fato, ainda soubemos que Rondônia também precisou enviar pacientes a outros estados por falta de leitos. O que falta para agirmos em Roraima? Os sinais são claros”, disse.

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