Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Saúde

Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África

Cientistas identificaram numa mulher de Salvador o 1º caso de reinfecção no país com uma mutação encontrada inicialmente na África do Sul

08/01/2021 07:45, atualizado 08/01/2021 09:46
Compartilhar notícia
Freepik/Reprodução
coronavírus covid sars-cov-2

Cientistas identificaram em uma mulher de Salvador o primeiro caso de reinfecção no Brasil com uma mutação do coronavírus encontrada inicialmente na África do Sul e que provoca preocupação mundial. A linhagem com a mutação da Bahia é a mesma identificada pela primeira vez no estado do Rio de Janeiro, cuja descoberta foi anunciada em dezembro.

A linhagem brasileira e a sul-africana são diferentes, mas compartilham a mutação E484K. As informações são do jornal O Globo.

O motivo da preocupação em torno dessa mutação é porque, em tese, ela pode tornar o vírus mais transmissível, dado que afeta uma região crucial do coronavírus.

Além disso, a mutação também afeta uma região que é alvo da maioria das vacinas. Ainda não existe evidência de que essa mutação afeta a eficácia dos imunizantes, mas é preciso investigar. Uma outra mutação da linhagem encontrada no Reino Unido e que já se espalhou por mais de 30 países atinge a mesma região do coronavírus.

Estudo remetido à publicação

O estudo que encontrou a mutação foi liderado por Bruno Solano, do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (IDOR) e do Hospital São Rafael, em Salvador, e foi submetido à revista científica Lancet. A descoberta já foi comunicada ao Ministério da Saúde e às autoridades de saúde da Bahia.

“Esse tipo de estudo é essencial para compreender a propagação da pandemia e identificar a tempo mudanças no vírus que possam ter impacto na transmissão e nas vacinas”, destaca Solano.

A mutação altera o chamado RDB, o ponto em que o Sars-CoV-2 se liga às células humanas. O RDB é a região mais crítica da proteína mais importante do coronavírus, a espícula ou S, alvo da maioria das vacinas e dos anticorpos neutralizantes produzidos pelo sistema imunológico. Como é o ponto de ligação entre o vírus e as células, o RDB é atacado pelos anticorpos.

Porém, a mutação confere ao vírus o que os cientistas chamam de mecanismo de escape. Ou seja, as mudanças genéticas fazem com que os anticorpos percam a especificidade contra o RDB porque ele já não é mais o mesmo. Os anticorpos passam a ser como tiros a esmo, deixam de “neutralizar” o vírus. Com isso, o Sars-CoV-2 pode “escapar” e infectar uma pessoa com mais sucesso.

Em teoria, isso ocorre tanto no caso dos anticorpos produzidos por uma infecção natural quanto daqueles desenvolvidos em resposta a uma vacina. Porém, como a proteína S é “grande”, tem outras regiões alvo, e as vacinas não perderiam eficácia.

Reinfecção por Covid-19

O caso que permitiu a identificação da mutação no Brasil é o de uma executiva da área de saúde de 45 anos, diz Solano. Ela teve Covid-19 duas vezes: em junho e outubro de 2020, em ambas as ocasiões com a infecção pelo Sars-CoV-2 comprovada por testes de RT-PCR.

De acordo com a análise, a primeira infecção foi significativamente mais branda do que a segunda, embora em nenhuma das duas ela tenha precisado de internação, acrescenta Solano. A reinfecção foi comprovada por meio de sequenciamento genético.

A análise genética revelou que os vírus do primeiro episódio eram substancialmente diferentes dos do segundo, indicando linhagens distintas. Em junho, foi a linhagem B.1.1.33 a causa de Covid-19. Já na segunda ocasião, a doença foi provocada pela variante B.1.1.248, derivada da descoberta no Rio de Janeiro e que tem a mutação E484K.

A cientista Marta Giovanetti, uma das autoras da descoberta, enfatiza que os casos de reinfecção são importantes para investigar a imunidade natural ao coronavírus e a eficácia de vacinas. Giovanetti também integrou o grupo que identificou a linhagem sul-africana.

“Temos questões importantes em aberto. Uma delas é o impacto sobre as vacinas. Outras, se essa mutação tem maior infectividade ou mesmo maior patogenicidade. Estamos tentando descobrir”, afirma Giovanetti, italiana radicada no Brasil desde 2016 e atualmente pesquisadora do Laboratório de Flavivirus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Casos suspeitos de reinfecção já estão em estudo e que os pacientes serão acompanhados também para saber o quão eficientes e duradouros são os anticorpos produzidos após a segunda infecção.

Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - destaque galeria
31 imagens
O desconto é válido para quem tiver sido imunizado e apresentar o cartão de vacinas
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 3
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 4
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 5
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 6
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 1
1 de 31

FUSION MEDICAL ANIMATION/UNSPLASH
O desconto é válido para quem tiver sido imunizado e apresentar o cartão de vacinas
2 de 31

O desconto é válido para quem tiver sido imunizado e apresentar o cartão de vacinas

Getty Images
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 3
3 de 31

adoslav Zilinsky/GettyImages
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 4
4 de 31

4X-image/Getty Images
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 5
5 de 31

Alexandr Gnezdilov Light Painting/Getty Images
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 6
6 de 31

IOC/Fiocruz/Divulgação
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 7
7 de 31

Arte/Metrópoles
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 8
8 de 31

Reprodução
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 9
9 de 31

Andriy Onufriyenko/Getty Images
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 10
10 de 31

Hexagon/Reprodução
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 11
11 de 31

JUAN GARTNER/GETTY IMAGES
A variante Gama é a brasileira, conhecida anteriormente como P.1
12 de 31

A variante Gama é a brasileira, conhecida anteriormente como P.1

Andriy Onufriyenko/GettyImages
Até agora, 5.747 pessoas não resistiram à doença no estado
13 de 31

Até agora, 5.747 pessoas não resistiram à doença no estado

Arte/Metrópoles
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 14
14 de 31

Peter Zelei Images/GettyImages
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 15
15 de 31

Yanka Romão/Metrópoles
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 16
16 de 31

Arte/Metrópoles
Bandeira da Alemanha com ilustrações do coronavírus
17 de 31

Bandeira da Alemanha com ilustrações do coronavírus

Peter Zelei Images/Getty Images
Em junho, a Nasa quebrou a tradição de publicar apenas fotografias do espaço na conta oficial do Instagram e colocou uma imagem do coronavírus atacando uma célula humana
18 de 31

Em junho, a Nasa quebrou a tradição de publicar apenas fotografias do espaço na conta oficial do Instagram e colocou uma imagem do coronavírus atacando uma célula humana

Niaid/Reprodução
Os cientistas alertam que não há como saber ainda se as mutações tornaram o vírus mais letal ou mais resistente ao sistema imunológico
19 de 31

Os cientistas alertam que não há como saber ainda se as mutações tornaram o vírus mais letal ou mais resistente ao sistema imunológico

BSIP/Colaborador/Getty Images
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 20
20 de 31

Arte/Metrópoles
Imagem do novo coronavírus
21 de 31

Imagem do novo coronavírus

IOC/Fiocruz/Divulgação
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 22
22 de 31

IOC/Fiocruz/Divulgação
Doutor Ulysses divulga uma série de informações inverídicas sobre o novo coronavírus
23 de 31

Doutor Ulysses divulga uma série de informações inverídicas sobre o novo coronavírus

Arte Metrópoles
Ilustração de coronavírus
24 de 31

Ilustração de coronavírus

Juan Gaertner/Science Photo Library/Getty Images
A chegada da vacina foi uma luz no fim do túnel para o negócio de Vagner
25 de 31

A chegada da vacina foi uma luz no fim do túnel para o negócio de Vagner

Myke Sena/Especial Metrópoles
O coronavírus foi transmitido pela primeira vez para humanos pelo contato direto com algum animal hospedeiro
26 de 31

O coronavírus foi transmitido pela primeira vez para humanos pelo contato direto com algum animal hospedeiro

NIAID/RML
A OMS ainda não sabe se a nova cepa é mais transmissível do que as outras variantes, ou se as mutações afetam a letalidade
27 de 31

A OMS ainda não sabe se a nova cepa é mais transmissível do que as outras variantes, ou se as mutações afetam a letalidade

CDC/Unsplash
Cerca de 73% dos pacientes que tiveram Covid-19 apresentam sintomas nos meses seguintes à infecção, segundo a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos
28 de 31

Cerca de 73% dos pacientes que tiveram Covid-19 apresentam sintomas nos meses seguintes à infecção, segundo a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos

CDC/Unsplash
A variante Ômicron foi identificada pela primeira vez na África do Sul, e tem mais de 50 mutações, sendo 32 na proteína spike
29 de 31

A variante Ômicron foi identificada pela primeira vez na África do Sul, e tem mais de 50 mutações, sendo 32 na proteína spike

NIAID/RML
Brasil tem primeiro caso de reinfecção com mutação do coronavírus da África - imagem 30
30 de 31

Callista Images/GettyImages
A versão Beta não apresenta alta transmissibilidade, mas é a mais eficiente em driblar as defesas do corpo
31 de 31

A versão Beta não apresenta alta transmissibilidade, mas é a mais eficiente em driblar as defesas do corpo

Callista Images/Getty Images

Integrante do mesmo grupo de pesquisa, Renato Santana, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), observa que o monitoramento genômico é essencial para caracterizar a pandemia. Isto é, saber quem são, como são e de onde vêm os vírus em circulação. Isso, porém, depende de testagem e de sequenciamento genético, ainda pouco realizado no Brasil.

Santana observa que a mutação E484K estaria mais associada à transmissão. Por permitir que o coronavírus escape do ataque de anticorpos, ela possibilitaria que ele se multiplicasse mais. E essa poderia ser a causa da maior carga viral (quantidade de vírus) observada recentemente no Brasil.

A linhagem brasileira do Sars-CoV-2, no entanto, não tem todas as mutações identificadas na sul-africana. “Casos de reinfecção, como esse que identificamos, mostra que precisamos monitorar os mutantes”, frisa Santana.