Prefeito mineiro diz que, no MEC, “pastor tem mais moral que deputado”

Após se reunir com o ministro Milton Ribeiro, o prefeito Fabiano Moreti teria destacado o poder que pastores possuem dentro da pasta

atualizado 22/03/2022 19:53

Milton Ribeiro discursa no Palácio do Planalto. Ele usa um terno azul e está de óculos - MetrópolesIsac Nóbrega/PR

Prefeito da cidade de Ijaci, em Minas Gerais, Fabiano Moreti faz parte do grupo dos chefes municipais que só conseguiram ser recebidos pelo ministro da Educação Milton Ribeiro após a interferência de Gilmar Santos e Arilton Moura, dois pastores suspeitos de realizar lobby na pasta. As informações são de O Globo.

Moreti teria afirmado que também se reuniu com o líder do Fundo Nacional de Educação (FNDE), Marcelo Lopes da Ponte, e que depois disso conseguiu recursos para construir uma creche em Ijaci.

O prefeito acentuou o poder que Santos e Moura possuem quando ligados a Milton: “O pastor tem mais moral que deputado. Eu sou aliado de deputados que não conseguem uma agenda para mim com o ministro. Conseguem com superintendentes e outros ocupantes de cargos menores”, disse ele.

Fabiano conta que em 13 de janeiro deste ano estava hospedado em Brasília, quando foi convidado por outros prefeitos para comparecer a um evento com o Milton Ribeiro. Tal evento teria sido organizado por um dos pastores, Arilton Moura.

De acordo com Moreti, o religioso também participou da reunião. “Foi a única vez na vida que consegui uma reunião com ministro”, pontuou o prefeito.

Depois de ser recebido pessoalmente pelo ministro da Educação, o líder de Ijaci disse que o gabinete de Ribeiro lhe direcionou para outra audiência demandada por ele, juntamente com o presidente do FNDE, Marcelo Lopes.

Segundo Moreti, a reunião rendeu benefícios para Ijaci. “Foi lá que, mais à tardezinha, resolvi as demandas do município. Conversei com o Marcelo sobre duas obras: uma quadra e uma creche. A creche a gente inaugurou. A quadra a gente está aguardando”, declarou.

Prefeitos contam que, após conferências com o Milton Ribeiro, com intermediação dos pastores, a liberação do dinheiro era rápida para os municípios.

Funcionário do ministro

André Kozan Lemos, prefeito de Dracena (SP), vibrou pela construção de uma escola e de um colégio cívico militar em sua cidade. Lemos diz que o pastor Arilton esteve na agenda com o Milton Ribeiro, em Brasília. “Eu achava que ele era funcionário do ministro”, explicou ele.

Ainda de acordo com o prefeito do município paulista, Milton Ribeiro se colocou à disposição para ir até Dracena, que relata ter levado outros chefes de Executivos municipais para encontrá-lo:

“O ministro foi muito bacana. Ele já conhecia a cidade e tem afinidade com o pessoal da igreja dele aqui em Dracena. Ele veio aqui, conseguimos a construção de uma escola e um colégio cívico militar. Na ocasião, eu convidei mais de 40 prefeitos da minha região, que também compareceram, e receberam orientação de como pleitear novas obras no MEC”, finalizou.

Prioridade para pastores

Nesta segunda-feira (21/3), a Folha de S.Paulo divulgou o áudio de uma reunião em que o ministro Milton Ribeiro afirma apoiar pastores a pedido do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Reunido com prefeitos, Milton Ribeiro disse que “foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar”. “A minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”, disse o ministro em uma conversa gravada.

No encontro, o ministro fala sobre verbas da pasta, cortes no orçamento e liberação de recursos para obras por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). De acordo com o jornal, reuniões são facilitadas por meio de pastores próximos a Milton em restaurantes ou hotéis de Brasília.

Pressionado até pela bancada evangélica, o ministro da Educação foi forçado a emitir uma nota oficial, nesta terça-feira (22/3), para tentar esclarecer as acusações de que favorece indicados por pastores em agendas e direcionamento de dinheiro da pasta.

Veja a nota completa:

“Diferentemente do que foi veiculado, a alocação de recursos federais ocorre seguindo a legislação orçamentária, bem como os critérios técnicos do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Não há nenhuma possibilidade de o ministro determinar alocação de recursos para favorecer ou desfavorecer qualquer município ou estado.

Registro ainda que o Presidente da República não pediu atendimento preferencial a ninguém, solicitou apenas que pudesse receber todos que nos procurassem, inclusive as pessoas citadas na reportagem. Da mesma forma, recebo pleitos intermediados por parlamentares, governadores, prefeitos, universidades, associações públicas e privadas. Todos os pedidos são encaminhados para avaliação das respectivas áreas técnicas, de acordo com legislação e baseada nos princípios da legalidade e impessoalidade.

Desde fevereiro de 2021, foram atendidos in loco 1.837 municípios em todas as regiões do país, em reuniões eminentemente técnicas organizadas por parlamentares e gestores locais, registradas na agenda pública do ministério, estabelecendo relação direta entre o MEC e os entes federados. Os atendimentos técnicos, conduzidos por servidores da autarquia, permitem esclarecimento dos procedimentos para planejamento e acesso aos recursos disponibilizados via FNDE, por meio do Plano de Ações Articuladas (PAR 4).

Seguindo os princípios de transparência, integridade e governança, obedecendo orientação dos órgãos de controle federais (CGU e TCU), esta gestão apresentou o Painel de Investimentos, buscando o aperfeiçoamento da gestão dos recursos públicos, pois muitos prefeitos ainda desconhecem sua carteira de projetos e quais recursos estão disponíveis em suas contas. O painel está disponível a qualquer cidadão que deseja acompanhar os recursos de seu município.

Independente de minha formação religiosa, que é de conhecimento de todos, reafirmo meu compromisso com a laicidade do Estado, compromisso esse firmado por ocasião do meu discurso de posse à frente do Ministério da Educação. Ressalto que não há qualquer hipótese e nenhuma previsão orçamentária que possibilite a alocação de recursos para igrejas de qualquer denominação religiosa.

Por fim, reafirmo o meu compromisso republicano de exercer as atribuições desta Pasta em prol do interesse público e do futuro da educação do Brasil”.

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