Por dentro da Casinha Games: cursos sobre jogos terão contêineres alugados a R$ 500 mil

Projeto profissionalizante para jovens negocia convênios no Distrito Federal e no Rio de Janeiro para aulas no segundo semestre de 2022

atualizado 02/10/2021 19:57

ilustrações do projeto casinha games cultura digitalSecretaria Especial de Cultura/Reprodução

O anúncio no início de setembro, via Diário Oficial, de que a Secretaria Especial de Cultura do governo federal havia separado R$ 4,6 milhões para investir em um projeto que ninguém conhecia, chamado Casinha Games — Cultura Digital, encheu as redes sociais de dúvidas – que o titular do órgão, Mario Frias, não fez questão de explicar. Cobrado em seus perfis, o ator e político se resumiu a dizer que se tratava de um projeto profissionalizante para jovens, e bateu boca com críticos.

O órgão também não atendeu os pedidos da imprensa para detalhar a ideia, mas, via Lei de Acesso à Informação, o Metrópoles chegou ao material documental que a Secretaria de Cultura já produziu sobre o tema. Com isso, é possível “entrar” nessa Casinha e conhecer melhor as intenções do projeto e suas circunstâncias.

De acordo com a resposta enviada à reportagem, a Casinha será bancada principalmente por verbas federais, mas executada por estados por meio de convênios. A ideia é instalar complexos com salas de aulas em contêineres e ter uma praça externa com telão para a exibição de vídeos educativos e da produção própria dos estudantes, pois deverão ser oferecidos cursos na área de desenvolvimento de jogos eletrônicos e também de produção de animações digitais.

Veja as imagens ilustrativas do projeto Casinha Games:

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Custos

O orçamento inicial da Casinha, de R$ 4,6 milhões, já sofreu um corte devido ao aperto orçamentário do governo federal. Agora, a previsão é que possam ser repassados, do Fundo Nacional de Cultura, R$ 2,93 milhões para as unidades da Federação que já negociam participação no programa: Distrito Federal e Rio de Janeiro.

Um dos documentos técnicos disponibilizados via LAI detalha os materiais que precisarão ser comprados ou alugados para tirar o projeto do papel. Pela previsão, o maior gasto será no aluguel de contêineres acopláveis, revestidos e com ar-condicionado, com custo previsto de R$ 504 mil para a locação de 24 unidades por 18 meses.

Está prevista ainda a compra, via licitação, de 36 computadores específicos para desenvolver e rodar jogos eletrônicos, os PCs gamers, por R$ 10,8 mil cada, além de teclados, mouses, monitores, câmeras, microfones, ilhas de edição, refletores e outros materiais eletrônicos. Os decks externos para serem instalados nos projetos no DF e no Rio deverão custar, segundo a cotação, R$ 444 mil, e os telões, R$ 192 mil.

Gastos com pessoal

A planilha traz a previsão de gastos com os salários dos prestadores de serviço. O investimento maior é no pagamento dos professores de e-games e de audiovisual. A previsão é que o custo anual da contratação de três profissionais fique em R$ 576 mil, ou R$ 192 mil para cada um (cerca de R$ 14,7 mil por mês).

Veja a planilha da previsão de custos da Casinha Games:

Anexo_Anexo Do Plano de Trabalho by Raphael Veleda on Scribd

Os cursos

A meta inicial do programa Casinha Games é formar 400 jovens em situação de vulnerabilidade a partir dos 13 anos em cada uma das unidades da Federação conveniadas.

De acordo com a apresentação do projeto, serão oferecidas três opções de cursos, o profissionalizante em e-gamer, o técnico ou profissionalizante em animação digital e o técnico ou profissionalizante em jogos digitais. Veja o conteúdo programático de cada um deles:

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Prazos

O programa Casinha Games ainda está na fase de negociação dos convênios com DF e RJ, e a previsão da Secretaria de Cultura é que eles sejam fechados ainda em 2021, com prazo de execução de 18 meses. As aulas estão previstas para começar no segundo semestre de 2022.

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro informou ao Metrópoles, por nota, que “tomou conhecimento do projeto Casinha Games e aguarda os desdobramentos da proposta, que tramita na Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo”.

Em resposta ao jornal O Globo na última sexta-feira (1º/10), a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF informou que recebeu, no dia 26 de abril deste ano, um ofício propondo a parceria para instalação do projeto em Sobradinho. A pasta enviou resposta, também via ofício, em 14 de maio, demonstrando interesse e solicitando informações adicionais à Secult. Desde então, segundo o órgão, não houve avanço nas tratativas.

Ainda de acordo com O Globo, que conseguiu, também via Lei de Acesso à Informação, um parecer técnico do projeto, quem formulou e vai operacionalizar o programa pedagógico é a prestadora de serviço Ghost Jack Entertainment Brazil Office, uma microempresa desenvolvedora de jogos com sede em Belo Horizonte.

Papel do filho 04 de Bolsonaro

O filho homem mais novo do presidente, Jair Renan Bolsonaro, é um entusiasta dos jogos eletrônicos. Em agosto de 2020, ele foi recebido pelo secretário Mario Frias para discutir o futuro dos “E-games”, como o secretário informou à mídia.

Na época, o encontro foi alvo de críticas na imprensa especializada em jogos e motivou artigos por parte de pessoas ligadas ao cenário competitivo dos e-sports. Profissionais do mundo dos games viram falta de transparência na forma como o assunto é abordado. A começar pelo fato de o encontro entre o secretário e o filho do presidente não ter constado na agenda da autoridade, bem como pela falta de informações sobre o teor da conversa.

Agora, com as notícias sobre a Casinha Games, a oposição ao governo Bolsonaro quer saber mais sobre o papel do filho do presidente. No último dia 14 de setembro, o deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) entrou com requerimento no Ministério do Turismo [ao qual a Secretaria de Cultura está vinculada] pedindo informações com relação à destinação de R$ 4,6 milhões do Fundo Nacional de Cultura para o projeto Casinha Games” e sobre o papel de Jair Renan Bolsonaro na história. O governo tem 30 dias para responder ao documento. Nas redes sociais, porém, Frias já negou que o influenciador digital tenha feito qualquer tipo de lobby para o projeto.

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