Líderes: apesar de vídeo, impeachment de Bolsonaro não prosperará

Parlamentares, porém, criticaram a atitude do presidente da República e afirmaram não ser um momento propício para protestos

Michael Melo/Metrópoles

atualizado 26/02/2020 19:00

A tentativa da oposição de dar uma resposta mais radical do Congresso Nacional à atitude do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), de divulgar vídeos, por meio do WhatsApp, convocando manifestações que incluem na pauta ataques ao Parlamento e ao Supremo Tribunal Federal (STF), esbarra na falta de vontade de líderes de partidos de direita e do centro de tensionar o clima com o chefe do Executivo.

A Quarta-Feira de Cinzas (26/02/2020), que alguns parlamentares classificaram como “quarta-feira de fogo” contra o presidente, não deve queimar muito mais. Para o líder do DEM na Câmara, Efraim Filho (PB), o momento é de “arrefecer a temperatura”.

“No momento em que o Brasil vive hoje, com a ameaça de epidemia de coronavírus, é necessário que os líderes políticos e das instituições estejam dialogando no sentido de juntar esforços para o enfrentamento desse desafio. Não está na hora de chamar manifestações como essa do dia 15 de março”, disse. “É preciso mais sensatez.”

A fala morna do líder do partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um dos alvos da manifestação incentivada pelo presidente, reflete o comportamento do próprio Maia e que deu o tom do que deve ocorrer no parlamento nos próximos dias.

O deputado fluminense foi às redes sociais defender as instituições democráticas, mas não classificou a atitude de Bolsonaro como um crime de responsabilidade, capaz de sinalizar para um impeachment. É necessário ressaltar que o início de um processo político de cassação do presidente da República cabe exclusivamente a Maia.

Neste contexto, Bolsonaro conta com Maia para colocar os “panos quentes” em um processo de impeachment, inclusive a ser apresentado por ex-aliados, como o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP), que já anunciou pelas redes sociais sua intenção de apresentar o pedido.

Grande reunião
A oposição esperava uma fala mais contundente de Maia contra o presidente. Mesmo assim, parlamentares ainda tentam articular uma grande reunião na segunda-feira da próxima semana. A intenção é fazer um movimento grande, não só com a presença de líderes, mas também com a participação dos presidentes dos principais partidos.

“Os presidentes dos poderes precisam se manifestar mais diretamente, mas de maneira mais incisiva. Afinal de contas, eles são os maiores alvos do presidente. Eles e as instituições que eles presidem”, disse Ivan Valente (PSol-SP). “Tem que dizer que as declarações e a convocação do presidente são ameaças diretas de golpe de estado e fechamento do Congresso. O presidente não pode agir como um delinquente no governo de um país”, completou.

O líder da oposição na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (PSB-RJ), também repudiou a divulgação do vídeo por parte de Bolsonaro. O deputado afirmou que o governo, além de atacar as instituições democráticas, contribui para a falta de investimentos no país. “A Bolsa de Valores reflete não só a incerteza causada pelo coronavírus, mas também a crise política instalada por Bolsonaro. Este governo faz mal ao crescimento do país e não consegue gerar empregos de qualidade pro povo”, criticou.

Reação do Senado
A atitude do presidente também repercutiu no Senado Federal. O líder do MDB na Casa, Eduardo Braga (MDB-AM), afirmou que foi uma “agressão” ao Congresso Nacional e uma maneira de atingir o “equilíbrio institucional” e a democracia brasileira. O senador ressaltou ainda a importância de manter um Parlamento ativo, independentemente de posições partidárias ou ideológicas.

“É o debate político no Parlamento que equaciona tensões e interesses contraditórios da sociedade. Mais do que legislar, cabe ao Congresso fiscalizar e controlar os atos do Executivo, coibindo eventuais abusos. Independente de posições partidárias ou ideológicas, é dever de todos respeitar e garantir o pleno exercício do Legislativo”, sustentou o parlamentar.

Apesar de ser favorável ao governo de Bolsonaro, o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP), disse que é “perigoso” ter um presidente da República convocando a população para ir às ruas contra o Congresso Nacional. “Eu ainda quero crer que tenha havido algum ruído de comunicação. Pode ter sido algum familiar a disparar mensagens do telefone de Bolsonaro. Já aconteceu isso em situações anteriores”, afirmou.

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