Convocação para protesto acirra relação do Congresso com governo

Líderes da oposição querem convocar chefe do GSI e secretário da Pesca para explicarem manifestações que pedem fechamento do parlamento

atualizado 26/02/2020 7:14

O chamamento de manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro que incluem a ideia de fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) tem sido motivo de irritação por parte de parlamentares da oposição e de outros líderes na Câmara. Diante disso, o retorno dos trabalhos após o Carnaval promete momentos de tensão entre Congresso e governo.

Além da convocação do ministro-chefe da Casa Civil, general Augusto Heleno, deputados da oposição querem chamar para prestar esclarecimentos o secretário especial da Pesca, Jorge Seif Júnior, que divulgou, via WhatsApp, um vídeo chamando as manifestações do dia 15 de março.

O chamamento do secretário acabou acirrando ainda mais o clima que andava exaltado na semana antes do Carnaval. Jorge Seif Júnior fez uma convocação para as manifestações e junto com o material divulgou a seguinte mensagem: “BR 15/03: O Brasil é nosso. Não dos políticos de sempre. Avante, Capitão Bolsonaro! Avante, Brasil!🐟”, assinalou o secretário. O Metrópoles teve acesso aos vídeos disparados e revelou a história.

Embora o vídeo divulgado pelo secretário não mencione as ideias de fechamento do Congresso Nacional e do Judiciário, a mobilização nas redes sociais para o evento incluem essas ideias defendidas por grupos de admiradores do presidente.

O próprio presidente está participando dos esforços para divulgar a manifestação. Segundo a jornalista Vera Magalhães, no blog BR Político, do jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro tem enviado para contatos no WhatsApp uma convocação por vídeo, que cita a facada que ele recebeu em 2018, em Juiz de Fora (MG), para dizer que ele quase morreu para defender o país e agora precisa que as pessoas vão às ruas para defendê-lo. O Metrópoles confirmou a informação.

“Inventar culpados”
Para o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon, setores do governo convocam manifestações para “inventar culpados” para os problemas do país. Ele disse que vai apresentar um requerimento de convocação do secretário de Pesca e Aquicultura, Jorge Seif Júnior, para explicar sua atitude de chamar uma manifestação que é contra as instituições democráticas.

“Como o governo Bolsonaro não tem competência para oferecer uma vida melhor para os brasileiros, fica inventando desculpa pra se manter no poder. O jeito mais fácil é inventar “culpados” para o desastre que é a sua gestão: o Congresso, o Judiciário, a Imprensa… Vamos propor a convocação do Secretário, que não se comporta à altura do cargo que ocupa. Mais um integrante do governo Bolsonaro a estimular ações contra a democracia. Não há espaço no Brasil para ditaduras.”

“Isolamento”
O líder do PT na Câmara, deputado Enio Verri (PT-PR), criticou a atitude de integrantes do governo de incentivar manifestações em favor do presidente Jair Bolsonaro que incluem defesas de ideias como o fechamento de instituições como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Para o petista, a estratégia do governo não guarda uma lógica democrática e só contribui para o isolamento do presidente, visto que, tanto políticos de esquerda, quanto de direita reagirão, segundo sua opinião, contra Bolsonaro.

“Tenho visto setores do governo chamarem essa manifestação, defenderem essas ideias e tenho medo de que o próprio presidente esteja participando dessa orquestração. Se isso é verdade, imagino que a saída que ele pensa para o Brasil não é por vias democráticas”, disse Verri, em entrevista ao Metrópoles.

Verri acredita que as reações contra o governo neste quesito serão fortes, não só no campo da oposição. “Já na primeira reunião de líderes, esse assunto será tratado”, destacou o petista.

“Eu aposto que a Câmara e o Senado darão respostas unitárias a esses ataques. Isso porque tanto parlamentares da oposição, quanto os mais liberais não aceitaram esse tipo de ataque. Um liberal de verdade diverge de nós no ponto de vista econômico, mas defende a democracia, defende o direito de minorias. Essas manifestações só podem sair de quem tem uma visão equivocada da sociedade”, criticou.

“Chantagem”
As manifestações estão sendo chamadas após a fala do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. Um dos mais próximos interlocutores do presidente, ele foi flagrado, em áudio, criticando o que chamou de “chantagem” do Congresso, fala que causou reação de deputados e senadores. No áudio, Heleno dizia: “Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-se”.

Neste contexto, a volta dos trabalhos tanto na Câmara, quanto no Senado, na próxima semana, deverá ocorrerá em um clima de tensão com o Planalto.

Antes do Carnaval, o presidente do Senado, que constitucionalmente também é o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP), deverá colocar em votação um pedido de convocação apresentado pela oposição para que o general vá ao Congresso explicar sua fala.

Além de Alcolumbre, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também reagiu aos ataques do general Heleno referente ao parlamento, classificando a fala como típica de um “estudante no auge da juventude”.

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