“Atormentado, Bolsonaro não tem apoio militar para golpe”, diz ex-ministro

Ex-titular da Defesa, Aldo Rebelo aponta investigações sobre milícias e filhos como razões de desequilíbrio e ameaças do presidente

Aldo RebeloMarcelo Camargo/Agência Brasil

atualizado 05/05/2020 12:15

Ex-ministro da Defesa do governo Dilma Rousseff, ex-ministro da Articulação Política no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-presidente da Câmara dos Deputados, o ex-deputado Aldo Rebelo é um dos políticos brasileiros com maior trânsito entre as searas militar e política. Para ele, o presidente Jair Bolsonaro se engana ao pensar que teria apoio das Forças Armadas para qualquer “aventura” fora dos trâmites da democracia.

No último domingo (03/05), Aldo diz ter visto um presidente atormentado por investigações e, por isso, cometendo arroubos e ameaças às instituições democráticas que, em sua opinião, contariam com apoio de “meia dúzia de fanáticos”, mas não do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

“Sinto o nosso presidente um homem atormentado, quase que à beira do desequilíbrio emocional. Ele está atormentado com coisas que só ele deve conhecer para lançar mão desses arroubos que não têm base na realidade. Ele não vai contar, no Brasil de hoje, a não ser com meia dúzia de fanáticos para qualquer tipo de aventura. Mas como ele é atormentado por investigações das milícias, de seus filhos, e agora, com a denúncia do Moro (ex-ministro da Justiça e Segurança Pública), ele apela para uma fraseologia de ameaça, que não vejo que terá consequência.”

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“As Forças Armadas não vão interferir para prejudicar o presidente nem para proteger erros do presidente. Elas serão leais ao presidente da República em sua missão institucional. Tudo que o presidente precisar de forma legítima, ele vai contar como todos os presidentes contaram. Isso tudo dentro da lei”, disse o ex-ministro, em entrevista ao Metrópoles. “Não creio que haja o menor clima para qualquer tipo de aventura à margem dos marcos da legalidade.”

As ameaças de um rompimento institucional foram sentidas no último domingo, quando o presidente compareceu a uma manifestação, na qual centenas de apoiadores se aglomeraram em frente ao Palácio do Planalto, defendendo o governo, mas também clamando por intervenção militar e bradando contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. O presidente, em uma transmissão ao vivo, disse: “Chegamos no limite”. “Queremos a independência verdadeira dos três poderes, e não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência. Não vamos admitir mais interferência. Acabou a paciência. Vamos levar esse Brasil para frente. Acredito no povo brasileiro e nós todos acreditamos no Brasil”, discursou.

E emendou: “Peço a Deus que não tenhamos problemas nessa semana. Porque chegamos no limite, não tem mais conversa. Daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição”, sem esclarecer a quais problemas se referia e o que aconteceria a partir do fim “da conversa”.

“Tenho certeza de uma coisa: nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo pela lei, pela ordem, pela democracia e pela liberdade. E o que é mais importante: temos Deus conosco. O Brasil tem tudo para dar certo e o Brasil vai dar certo”, afirmou o presidente.

Para Rebello, Bolsonaro precisa ser responsabilizado pelos seus erros: “O presidente tem cometido muitos erros que não são aceitáveis. Não se pode passar a mão na cabeça do presidente. Ele afronta as instituições, comparece a atos que ameaçam fechar o Congresso, fechar o Supremo. Ele não pode fazer isso. Ele é chefe de um poder e não pode afrontar os demais”, disse Rebelo.

Ele, no entanto, é contra os processos de impeachment como forma de se resolver o problema. “Eu sempre tenho muito receio desses processos de impedimento de presidentes da Republica. Eu já passei por dois, do presidente Fernando Collor, que foi um desastre para o país, e o mais recente, da presidente Dilma, quando inventaram um crime, as pedaladas, apenas para afastá-la da presidência. Também com consequências lamentáveis para o Brasil”, afirmou.

“O tipo de punição dos erros e dos crimes, quem tem que analisar é o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. No que vai resultar, nós não podemos antecipar, mas não acho impeachment de presidente uma coisa saudável para o país”, completou.

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