Após Heleno: 1 em cada 3 ministros de Bolsonaro diz que irá se vacinar

Primeiro ministro vacinado foi o general Augusto Heleno, de 73 anos. Segundo mais velho, Guedes, 71, já afirmou que pretende se imunizar

atualizado 21/03/2021 12:25

Bolsonaro e ministros no Palácio do PlanaltoMarcos Corrêa/Presidência da República

Dos 22 ministros do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), 15 foram diagnosticados com Covid-19 desde o ano passado. A lista inclui nomes que não compõem mais o primeiro escalão do governo, como Jorge Oliveira, hoje ex-titular da Secretaria-Geral, Marcelo Álvaro Antônio, hoje ex-chefe do Turismo, e Eduardo Pazuello, que deve deixar o comando do Ministério da Saúde nos próximos dias.

O Plano Nacional de Imunização não faz qualquer menção à vacinação de autoridades do governo, ou seja, membros de governo de nível federal, estadual e municipal terão de seguir o cronograma elaborado pelo Ministério da Saúde, de acordo com a idade e os grupos mais vulneráveis à doença.

Existe a hipótese, porém, de uma campanha de vacinação de integrantes do governo, liderada por Bolsonaro, a fim de incentivar a população a fazer o mesmo. 

No pior momento da pandemia no país, que já acumula mais de 290 mil mortes, um terço dos ministros de Bolsonaro afirmou ao Metrópoles que pretende se vacinar contra a Covid-19. O restante do primeiro escalão foi procurado ao longo da semana, mas não se manifestou.

O ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), é o decano entre os colegas da Esplanada, com 73 anos. Na última quinta-feira (18/3), quando o Distrito Federal liberou a vacinação para pessoas com 72 e 73 anos, o ministro se vacinou em um posto drive-thru, em Brasília.  

Em uma publicação nas redes sociais, Heleno afirmou que o governo defende a imunização em massa, mas fez um aceno aos apoiadores mais ferrenhos, que defendem a bandeira anti-imunização que Bolsonaro levantava até pouco tempo atrás. 

Heleno foi uma das primeiras autoridades a contrair a Covid-19, em março de 2020. A iniciativa de se vacinar de imediato sinaliza que a retórica do governo de questionar a imunização ficou para trás.

O segundo ministro mais velho do governo é Paulo Guedes, chefe da pasta da Economia, com 71 anos. Em entrevista à CNN Brasil na última terça-feira (16/3), Guedes disse que tem a intenção de se vacinar. 

“Já queria ter me vacinado. Eu acho ótimo. Sou candidato a [me] vacinar, quero me vacinar”, frisou ele, que ainda não teve diagnóstico positivo para a doença.

Quanto ao local de vacinação do ministro da Economia, a pasta disse ainda não dispor de informação confirmada, mas indicou que provavelmente será Brasília. 

Até o início da pandemia, o ministro passava a semana em um hotel na capital federal e se deslocava ao Rio de Janeiro aos fins de semana, onde sua família morava. Depois, por sugestão de Bolsonaro, mudou-se para uma das residências oficiais da Presidência, na Granja do Torto.

Terceiro na lista de longevidade, o ministro Fernando Azevedo e Silva, de 67 anos, vai tomar a vacina. Ele vai seguir o cronograma de vacinação contra Covid-19, informou a assessoria do Ministério da Defesa.

A ministra Tereza Cristina (Agricultura e Pecuária) e o ministro Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral da Presidência), ambos com 66 anos, informaram, por meio deu suas assessorias, que pretendem se vacinar de acordo com o cronograma estabelecido pelo Ministério da Saúde. 

Aos 58 anos, o general Eduardo Pazuello já foi infectado em outubro passado. Procurada, a assessoria da pasta não deixou claro se o militar irá se vacinar. 

Em nota, afirmou apenas que, considerando a orientação do PNI – que estabelece uma ordem de vacinação para os grupos prioritários – Pazuello e os secretários “ainda não foram imunizados, pois não fazem parte dos grupos prioritários convocados para a vacinação no momento”. O ministério não deu informações sobre o futuro ministro da pasta, Marcelo Queiroga, apesar de a reportagem ter questionado. 

Com 57 anos, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que irá se vacinar, mas que quer ser a última da fila.

“Vou tomar quando não tiver nenhum idoso, pessoa com deficiência e índios sem vacina. Só depois que eu tiver a certeza de que todos eles estão protegidos. Vou me vacinar, mas quero ser a última da fila”, afirmou a ministra ao Metrópoles.

Com 45 anos, a vez do ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, deve demorar a chegar. Ele já foi infectado em junho passado. Questionado sobre se iria se vacinar, afirmou, por meio de sua assessoria, que não iria se manifestar por se tratar de um “assunto pessoal” e “não de atribuições institucionais do órgão”.

Por outro lado, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, também com 45 anos, informou que irá se vacinar contra a Covid-19 conforme sua vez na fila. 

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, de 43 anos, informou ao Metrópoles que pretende se vacinar tão logo o imunizante esteja disponível para a sua faixa etária, dentro do Programa Nacional de Imunização (PNI). Ele é o integrante do primeiro escalão mais jovem da Esplanada e foi diagnosticado com Covid-19 em outubro. Na época, disse ter se tratado com cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada.

A Casa Civil, a Secretaria de Governo e a Advocacia-Geral da União (AGU) não responderam até o fechamento desta reportagem. Os ministérios da Educação; Minas e Energia; Ciência e Tecnologia; Relações Exteriores; Turismo; Justiça e Segurança Pública; Cidadania e Meio Ambiente também não deram retorno, apesar de acionados mais de uma vez ao longo da última semana. O espaço segue aberto para manifestações.

Cronograma de vacinação no DF

O Distrito Federal é a 3ª unidade da Federação que mais vacinou contra a Covid-19, com 6,16% da população já vacinada. Como todos os ministros despacham e residem na capital, eles têm direito a se imunizar no DF.

As pessoas com 72 e 73 anos começaram a ser vacinadas contra a Covid-19 no Distrito Federal na última quinta-feira (18/3). Pessoas com 69, 70 e 71 anos começam a ser imunizadas a partir de segunda-feira (22/3)

Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, a capital já recebeu 287.360 doses da vacina CoronaVac produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac , e 67 mil doses da vacina Covishield desenvolvida pela universidade inglesa de Oxford, com a farmacêutica sueco-britânica AstraZeneca. 

A vacina CoronaVac tem intervalo de aplicação entre as doses de 14 a 28 dias. Devido a isso, metade das doses recebidas são reservadas para a segunda aplicação. Já com a vacina de Oxford, esse intervalo é de até 90 dias.

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Bolsonaro e Mourão

Em janeiro, após ter se recuperado da Covid-19, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, 67, afirmou que iria tomar a vacina, mas que não iria “furar fila”, exceto em caso de uma campanha de imunização de autoridades a fim de incentivar a população. 

“[Pretendo tomar a vacina] dentro da minha vez. Eu sou grupo 2, de acordo com o planejamento [do Ministério da Saúde]. Não vou furar a fila, a não ser que seja propagandística”, disse.

Questionada, a vice-presidência ressaltou que Mourão irá respeitar a fila de vacinação do Ministério da Saúde e que “aguardará a definição protocolar de data e local”. 

Por outro lado, o Palácio do Planalto afirmou que não iria se manifestar sobre uma eventual vacinação do presidente Jair Bolsonaro. 

No ano passado, em diversas ocasiões, Bolsonaro afirmou que não tomaria a vacina porque já estava imunizado por ter sido infectado em julho – o que especialistas dizem não ser razão para evitar a imunização, pelo risco de reinfecção e disseminação do vírus. 

Em outra oportunidade, em dezembro passado, ele argumentou que quem viesse a ser imunizado com a vacina da Pfizer poderia virar “jacaré”, se referindo a uma condição contratual que a empresa dos Estados Unidos estabelece para não se responsabilizar por eventuais efeitos colaterais após aplicação do imunizante. A prática é comum nas vacinações tradicionais.

Agora, o presidente tem defendido a “política da vacinação em massa”. O tom do chefe do Executivo segue crítico – com ataques a governadores que adotam medidas mais restritivas e em defesa de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, por exemplo –, mas está mais ameno quando o assunto é imunização. 

A mudança foi sugerida por auxiliares após o bunker digital do Planalto ter identificado uma queda no engajamento de apoiadores nas redes diante da postura contra a vacina, além de uma diminuição da popularidade do presidente.

Além disso, o discurso precisou ser reajustado após críticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao governo sobre a forma como a pandemia vem sendo conduzida no país. No início do mês, o petista teve suas condenações na Lava Jato anuladas. Pela decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula recuperou os direitos políticos e voltou a ser elegível. 

O petista recebeu a primeira dose da vacina no último fim de semana, em São Bernardo do Campo, na região do ABC Paulista.

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