Após agenda em Brasília, Lula amplia arco de alianças anti-Bolsonaro

De segunda a sexta, ex-presidente se reuniu com embaixadores, parlamentares e lideranças políticas para formar frente ampla democrática

atualizado 08/05/2021 17:29

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em BrasíliaFoto: Ricardo Stuckert

Após uma semana de agenda cheia com parlamentares, lideranças políticas e embaixadores, em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) retornou a São Paulo, no início da tarde de sexta-feira (7/5), com uma bagagem maior e mais pesada para formar alianças políticas que, embora não necessariamente alinhadas a um único candidato, podem se unir para derrotar o bolsonarismo nas eleições de 2022.

O petista se reuniu com possíveis candidatos a governadores, como o deputado federal Marcelo Freixo (PSol-RJ) e o senador Fabiano Contarato (Rede-ES), e conversou, inclusive, com nomes do centro e da ala centro-direita, como o deputado federal e ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) – que irá para o PSD –, o ex-presidente da República José Sarney (MDB) e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, ex-ministro da Ciência e ex-prefeito de São Paulo (SP).

Embaixadores de Argentina, Cuba e Venezuela também se encontraram com o ex-presidente. Os três países não mantêm boas relações com Bolsonaro e são constantemente bombardeados pelo atual mandatário da República e por seus apoiadores, sob o argumento de estarem, supostamente, mergulhados no comunismo. Representantes de Alemanha, Reino Unido, África do Sul e Grécia também falaram com o petista.

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As conversas giraram em torno do valor do auxílio emergencial, da vacinação contra a Covid-19 e, sobretudo, da construção da chamada “frente ampla democrática” contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A proposta é alavancar uma união de partidos, que vão desde o PSol de Freixo até o MDB e o PSD de Maia e Kassab, por exemplo, principalmente no Rio de Janeiro, reduto eleitoral da família Bolsonaro, mas com expectativas de alianças pontuais em vários outros estados.

Essa foi a primeira viagem nacional de Lula após o Supremo Tribunal Federal (STF) anular as condenações que pesavam contra o petista no âmbito da força-tarefa da Operação da Lava Jato, o que o tornou novamente elegível.

“Hoje, essa frente ampla é muito mais antibolsonarista do que em prol de uma candidatura. O que une Rodrigo Maia, Lula e Eduardo Paes, por exemplo, é muito mais um posicionamento contrário ao governo federal do que um posicionamento favorável a algum candidato”, explica o cientista político Marco Antônio Teixeira, pesquisador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Lula, no entanto, encontrará resistência para tornar a articulação no Rio um modelo para outros locais do país. Ao petista, o presidente nacional do PDT, Gilberto Kassab, disse estar empenhado em fortalecer o partido durante as próximas eleições. O ex-ministro do presidente Michel Temer (MDB) quer ter o maior número possível de candidatos próprios nos estados. Ele antecipou, ao blog do Noblat, do Metrópoles, que o PSD apoiará um presidenciável que não será Lula nem Bolsonaro.

O petista também terá que driblar ressalvas do MDB do Rio na formação da frente ampla antibolsonarista. O Metrópoles apurou que os prefeitos de Duque de Caxias, Washington Reis, e de Belford Roxo, Waguinho, são nomes fortes dentro do partido no estado e podem dificultar a aliança com o ex-presidente, uma vez que são alinhados a Jair Bolsonaro.

Foi esse, inclusive, o principal motivo que fez Rodrigo Maia desistir de se filiar à sigla, após anunciar o rompimento com o DEM e receber convite do deputado federal Baleia Rossi (MDB).

O cientista político João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), avalia ser “natural” que o primeiro turno das eleições de 2022, apesar dos encontros de Lula, tenha uma certa divisão entre os candidatos. “Ele não está esperando que todo mundo feche com ele no primeiro turno, mas as conversas tratam de um eventual segundo turno. É unir forças, porque precisa de efeito”, diz.

“A ideia do Lula é conversar com o máximo de gente possível e fazer uma uma aliança em torno do nome dele; uma aliança com vários setores, não só a esquerda propriamente dita mas também o centro e até políticos de direita que sejam comprometidos com a democracia”, prossegue o especialista.

Já os debates sobre auxílio emergencial e as vacinas contra a Covid-19 não mostram, na prática, eficácia, mas deixam o governo federal em alerta. Em relação ao benefício criado para auxiliar famílias de baixa renda durante a pandemia, Lula propõe aumentar o valor para R$ 600. Para financiar, ele avalia ser necessário aumentar a base monetária do país ou usar recursos dos fundos contingenciados ou de reservas internacionais.

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), disse se tratar de uma opção importante avaliar os riscos do futuro. Ele afirmou acreditar, no entanto, que o país perdeu uma oportunidade de ampliar a base monetária “lá atrás, quando a inflação e os juros” estavam muito baixos e o desemprego, alto.

Apesar de não haver muitas esperanças sobre aumentar o valor do auxílio emergencial, Marco Teixeira, da FGV, enfatiza que, nesta semana, a agenda de Lula foi mais movimentada do que a de Bolsonaro, o que coloca o atual presidente em alerta. “O Lula não é presidente da República e também não é gestor, mas, à medida que ele se movimenta, pressiona o governo federal. Bolsonaro não vai querer que o Lula fique falando”, aponta.

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