Análise: com Queiroz e Bebianno, filhos de Bolsonaro desgastam governo

Presidente acumula problemas sem solução e sofre as consequências do envolvimento da família em fatos negativos para o Planalto

Fernando Frazão/Arquivo/Agência Brasil

atualizado 15/02/2019 8:46

Um mês e meio depois de tomar posse, o presidente Jair Bolsonaro enfrenta mais um caso desgastante para o governo. Ainda sem esclarecer os rolos do ex-assessor Fabrício Queiroz, o capitão convive com a suspeita de desvio de dinheiro público repassado pelo seu partido, o PSL, a candidatas sem expressão eleitoral em 2018.

Em comum, os dois fatos têm o envolvimento de filhos do presidente. No primeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) enredou-se na movimentação financeira atípica, quando exercia mandato de deputado estadual, e nas ligações de Queiroz com pessoas ligadas a milicianos.

Outro filho, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC), age na desestabilização do secretário-geral da Presidência da República, ministro Gustavo Bebianno, atingido pelas denúncias de candidaturas laranjas no ano passado. Qualquer que seja o desfecho, essa briga deixará sequelas nas relações da família com o governo.

Presidente nacional do PSL em 2018, Bebianno teve papel decisivo na estruturação do partido e nas eleições das bancadas no Congresso. Responsável por liberar as verbas para os candidatos, defende-se da acusação de irregularidades com o argumento de que cabia aos diretórios estaduais indicar os beneficiados.

Em nota divulgada na noite desta quinta (14/2), ele afirmou ter responsabilidade apenas na prestação de contas da eleição de Bolsonaro. O PSL também distribuiu documento com conteúdo semelhante.

Ao reagir, Bebianno joga o problema para o deputado Luciano Bivar (PSL-PE), nome mais importante do partido em Pernambuco e, em 2018, licenciado da presidência nacional da legenda. A Polícia Federal investiga o caso e, espera-se, identificará a autoria de eventuais ilegalidades.

O desempenho na eleição rendeu ao ministro a gratidão de boa parte dos deputados e senadores. O senador Major Olímpio (PSL-SP), por exemplo, teve longa conversa com jornalistas na tarde desta para defender a atuação de Bebianno no processo eleitoral.

Presidente estadual do partido em São Paulo, o parlamentar reforçou o entendimento de que cabe ao diretório local escolher as candidatas agraciadas com as verbas públicas. O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, também trabalha para manter o ministro no Palácio.

Mesmo que, do ponto de vista jurídico, Bebianno nada tenha a ver com eventuais desvios de dinheiro, não se pode negar sua responsabilidade política nos rumos tomados pelo partido no ano passado. Ao eximir-se da destinação dos recursos, ele terceirizou também as explicações devidas à sociedade pelo PSL.

Essa situação tira do ministro parte do estoque de credibilidade necessário para quem ocupa cargo de tamanha importância no governo. Deixa dúvidas, também, sobre como se comportará caso surja alguma dúvida sobre atos praticados sob sua jurisdição no Planalto. Nessa posição, tudo o que faz, queira ou não, respinga em Bolsonaro.

Por fim, deve-se registrar a serenidade de Bebianno na condução desse caso. Apesar das pedradas jogadas por Carlos, preocupa-se com a liturgia do cargo e não rebate o filho do presidente nas redes sociais. Em alguns momentos, subiu um pouco o tom, como quando afirmou que “não se atira na nuca do próprio soldado”. Mas evita perder as estribeiras.

O mesmo não se pode dizer de Carlos, que chamou o ministro de “mentiroso” no Twitter e ajudou a atormentar a vida do pai durante a recuperação da terceira cirurgia no intestino decorrente do atentado sofrido durante a campanha. Se quiser governar com mais tranquilidade, recomenda o general Mourão, o presidente terá de “dar ordem unida” nos filhos. A ver.

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