Moro omitiu à Justiça palestra paga realizada em 2016, diz jornal

A conferência do então juiz ocorreu em teatro de Novo Hamburgo (RS), com 2.000 ingressos esgotados em apenas dois dias

Raimundo Sampaio/Especial para o MetrópolesRaimundo Sampaio/Especial para o Metrópoles

atualizado 04/08/2019 13:18

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, não prestou contas de uma palestra remunerada que deu em setembro de 2016, enquanto juiz da Operação Lava Jato em Curitiba. A reportagem do jornal Folha de S. Paulo checou no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), no Paraná, que o então magistrado alegou ter participado de 16 eventos no ano, incluindo 9 palestras, 3 homenagens e 2 audiências no Congresso Nacional.

Moro omitiu, porém, uma palestra mencionada em uma das conversas hackeadas com o procurador federal e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, em 2017.  No dia 22 de de maio, teria dito que um representante do grupo de comunicação Sinos queria o contato de Dallagnol para fazer um convite. No texto, o então juiz destaca: “Ano passado dei uma palestra lá para eles, bem organizada e bem paga”.

Questionado sobre o assunto, o atual chefe da pasta da Justiça argumentou que a omissão da palestra pode ter ocorrido por “puro lapso”. Além disso, Moro disse que parte do cachê recebido foi doada a uma entidade beneficente.

O Conselho Nacional de Justiça decidiu, em junho de 2016, que juízes devem, obrigatoriamente, registrar eventos que podem ser classificados como “atividades docentes” pelas normas da magistratura. Com a resolução, tem-se o prazo de 30 dias para informar data, assunto, local e entidade responsável pela organização.

A palestra aconteceu em teatro de Novo Hamburgo (RS), no dia 21 de setembro, com 2.000 ingressos esgotados em apenas dois dias. O tema era o combate à corrupção. Segundo fontes do portal, o ex-magistrado ganhou cachê entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. No mesmo mês, teria recebido R$ 28,4 mil pela magistratura, já descontados os impostos.

Apesar das mensagens, a assessoria de imprensa do tribunal confirmou que Moro não declarou nenhuma remuneração pelas palestras realizadas em 2016. “Estão todas sem constar valor recebido, entendendo-se como gratuitas”, disse, via texto.

Conforme os registros do site do TRF-4, em 2017 e 2018, Moro declarou participação em 25 eventos.

Palestras declaradas

Colega de Moro, Deltan Dallagnol teria montado um plano de negócios para lucrar com a fama conquistada nas investigações. Ao lado do também procurador Roberto Pozzobon, fez planos para ganhar dinheiro, paralelamente à atuação no Ministério Público Federal, participando de eventos e palestras devido à visibilidade e aos contatos obtidos durante as investigações do caso de corrupção. É o que apontam mensagens obtidas pelo site The Intercept Brasil analisadas em conjunto com a Folha – publicadas no mês passado.

Além de palestras sobre temas correlatos à operação – como ética e combate à criminalidade –, Deltan cogitou, inclusive, entrar para o ramo de palestras motivacionais e de autoajuda. O objetivo dessas últimas, segundo o que indica o conteúdo publicado pelo jornais, era atrair o público mais jovem.

Em um chat sobre o tema, criado no fim do ano passado, Deltan e um colega da Lava Jato discutiram a constituição de uma empresa na qual eles não apareceriam formalmente como sócios, para evitar questionamentos legais e críticas. Como procuradores, eles não podem figurar como sócios-administradores de empresas. Dessa forma, as esposas deles poderiam atuar como sócias.

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