Influência de Olavo de Carvalho sobre Bolsonaro irrita evangélicos

Bancada reúne 180 deputados e deve ser manter “independente” enquanto pauta de costumes não for priorizada pelo governo federal

Rafael Carvalho/Governo de TransiçãoRafael Carvalho/Governo de Transição

atualizado 06/04/2019 11:45

A indisposição da bancada evangélica no Congresso Nacional com o governo de Jair Bolsonaro (PSL) continua em alta. Agora, é ainda mais turbinada pela nova fase inaugurada nesta semana, de diálogo do Planalto com dirigentes partidários, em detrimento das frentes bancadas temáticas, tanto na Câmara quanto no Senado.

Um novo ingrediente foi acrescentado a essa espera dos evangélicos por um aceno do governo: o domínio das ideias do guru do presidente, o filósofo Olavo de Carvalho, nas pastas da administração pública federal. O incômodo chega a ser verbalizado até por um dos mais palacianos dos deputados que integram a bancada religiosa (na foto em destaque, o grupo reunido com Bolsonaro durante a transição).

Alan Santos/PR
Olavo de Carvalho sentou-se entre o chanceler Ernesto Araújo e o presidente brasileiro durante jantar em Washington (EUA)

 

Quando Olavo de Carvalho passar – porque todos passam –, o que vai ficar é a bancada evangélica, que já estava no Congresso defendendo a família, enfrentando votações, cumprindo o seu papel de resistência, de trincheira política da defesa da família. Respeito Olavo, mas a pauta moral já era tocada antes mesmo da chegada dele

Roberto de Lucena (PSL-SP), integrante da base aliada de Bolsonaro no Congresso e da bancada evangélica

As alfinetadas nas redes sociais entre Olavo de Carvalho e o bispo da Assembleia de Deus Vitoria em Cristo, Silas Malafaia, contribuíram ainda mais para inflar o desgaste. Malafaia classificou como “simplesmente ridícula” a ideia de que Carvalho teria mais peso na vitória do presidente do que os evangélicos.

O guru, radicado nos Estados Unidos, rebateu dizendo que as igrejas evangélicas chegaram com um “atraso formidável” na luta contra o PT. “Pelo menos até 2009, ainda se davam muito bem com o partido governante”, disse o filósofo autodidata.

As deferências de Bolsonaro ao escritor durante a viagem aos Estados Unidos, há duas semanas, além da sucessão de demissões no Ministério da Educação, comandado pelo olavista Ricardo Vélez Rodríguez, serviram de combustível para a fogueira política.

“Olavo é um gênio. Olavo é um grande pensador. Mas, como ele está muito longe do Brasil, algumas vezes tem dificuldade de aferir, de colocar a mão no pulso antes de um diagnóstico. Ele não fez por mal, mas não foi uma leitura precisa”, observou Lucena. “Em sua manifestação, ele diminuiu a importância da bancada. Grande parte da onda que se formou e que foi decisiva para a eleição de Bolsonaro passa por esse segmento, que reúne 60 milhões de brasileiros”, completou o deputado.

Lucena é fiel defensor do governo e evita falar em desgaste. Prefere o termo “apreensão”. “Espero que o governo encontre o seu caminho e consiga dialogar com o Congresso para diminuir aqueles bolsões, aqueles fatores que têm provocado os desgastes”, disse. “A pauta de reformas estruturantes é importante. É também nossa grande prioridade. Temos 13 milhões de desempregados”, ressaltou o parlamentar.

Segundo o deputado, o que a bancada mais sente falta é de um “canal efetivo de diálogo e de construção conjunta de soluções”. “Ele pode melhorar a possibilidade de que as decisões que envolvem o Brasil sejam mais discutidas com a bancada evangélica”, sugeriu Roberto de Lucena.

Independência
A bancada evangélica conta com 180 deputados e senadores. Recentemente, o grupo elegeu o deputado Silas Câmara (PRB-AM) como presidente, e as reuniões estão ocorrendo todas as quartas-feiras. A Câmara não aponta a bancada como base de articulação de Bolsonaro e diz que a frente existe na defesa da pauta de costumes, independentemente dos posicionamentos políticos dos partidos de cada integrante.

Existe um equívoco. A bancada evangélica não é atrelada ao governo e respeita a liberdade de seus componentes, da defesa de nossas prioridades e do posicionamento de acordo com seus partidos

Silas Câmara (PRB-AM), presidente da bancada evangélica do Congresso Nacional

O deputado evitou falar sobre as demissões de quadros evangélicos do governo, destacando que os integrantes do grupo adotaram uma postura de independência. “Não indicamos e nem vamos indicar ninguém”, garantiu.

Mas as insatisfações se acumulam a cada semana. De acordo com Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), um dos deputados mais próximos a Jair Bolsonaro, a tendência é mesmo que o grupo se coloque como independente em vez de alinhado ao governo.

Prece
O desgaste, segundo alguns membros, já teria começado antes mesmo da posse, com a recusa de Bolsonaro em fazer do ex-senador capixaba Magno Malta (PR) um de seus ministro. Os evangélicos apoiadores do novo governo consideraram vexatória a forma como se deu a dispensa de Malta, visto que o ex-senador dava como certa sua nomeação e acabou preterido.

A última cena de Malta com Bolsonaro foi a prece conduzida pelo ainda parlamentar, que é pastor da Igreja Batista, na casa do então presidente eleito, no Rio de Janeiro, logo após o resultado das urnas. Naquele momento, Malta era considerado um dos homens mais próximos do novo presidente (juntos, na foto abaixo).

 

WALTERSON ROSA/FRAMEPHOTO
Acabou preterido e teve sua ex-assessora nomeada para a pasta que pretendia comandar. A ex-assessora é a ministra Damares Alves, do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Embaixada em Israel
Recentemente, o pastor Marco Feliciano (Pode-SP) também expressou sua apreensão nas redes sociais (veja abaixo) ao comentar o recuo de Bolsonaro em relação à transferência da embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, uma promessa de campanha aos evangélicos.

O presidente decidiu abrir apenas o escritório de negócios na cidade, considerada sagrada por cristãos, judeus e muçulmanos, mantendo a representação na capital política do país. O recuo atende a um alerta do agronegócio, mas é considerado insuficiente para os evangélicos.

Feliciano é um defensor assíduo de Bolsonaro e suas ideias. O parlamentar tem centrado fogo nos militares, outro grupo em franca disputa com os evangélicos por espaços no poder.

Pautas prioritárias
Enquanto o governo pauta a reforma da Previdência e o projeto anticrime apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, como temas prioritários do Planalto, evangélicos têm na gaveta a sua chamada pauta de costumes e não escondem a frustração.

Como o próprio presidente da frente parlamentar deixou explícito, Bolsonaro será cobrado “no momento oportuno” quanto aos compromissos que assumiu na campanha. Entre eles está a articulação para a aprovação do Estatuto do Nascituro, um conjunto de leis que garante direitos civis para o feto desde a concepção e se contrapõe a qualquer proposta de discriminalização do aborto.

Outro ponto listado como fundamental para a bancada é impedir qualquer forma de descriminalização de drogas no Brasil. Os parlamentares evangélicos são radicalmente contra essa ideia e combatem, inclusive, a liberação de medicamentos provenientes da maconha, como o canabidiol, utilizado para o controle da epilepsia e outras doenças.

Igualmente prioritária para o grupo é a autorização do governo para os pais não serem obrigados a mandar seus filhos para a escola e possam educá-los em casa, método que tem sido denominado no Parlamento brasileiro pelo termo em inglês homeschooling. Para os evangélicos, essa forma de educação, já adotada em alguns países, preserva o domínio familiar sobre os filhos e garante segurança jurídica às famílias brasileiras que defendem a ideia.

Os membros da bancada também têm como ponto fundamental a refutação absoluta do que eles chamam de “ideologia de gênero”. Trata-se da negação de direitos das pessoas que se reconhecerem do gênero masculino ou feminino independentemente da condição em que nasceram.

“Meninos nascem meninos e meninas nascem meninas. Simples assim”, exemplificou o deputado Roberto de Lucena. Nesse contexto, acabam excluídos direitos reconhecidos no Brasil pelo Judiciário, por órgãos do próprio Executivo e ainda pelo Legislativo, em relação aos transexuais.

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