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Terminou, por volta das 16h55 desta segunda-feira, o depoimento do ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ao juiz titular da 10ª Vara Federal (Brasília), Vallisney de Souza Oliveira. Durante cerca de sete horas e meia, o ex-todo-poderoso da Câmara dos Deputados negou acusações que lhe foram imputadas tanto pelo Ministério Público Federal quanto por delatores do suposto esquema de desvios de recursos do FI-FGTS, fundo de investimentos controlado pela Caixa Econômica Federal. De acordo com as acusações, os desfalques abasteciam, por meio de propinas, o grupo político ligado a Eduardo Cunha – ele seria, inclusive, o mentor da fraude.

Além de negar as acusações, Eduardo Cunha chamou de “mentirosos” seus detratores. Sobrou acusações para todos os lados. Também são réus na ação penal sobre o caso o operador financeiro Lúcio Funaro, o ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto, o ex-ministro Henrique Eduardo Alves e o empresário Alexandre Margotto, que trabalhava com Funaro. Com exceção do ex-ministro, todos já foram ouvidos pelo juiz titular da 10ª Vara. O depoimento de Henrique Eduardo Alves terá início ainda nesta tarde.

Pobreza
Uma das declarações de Eduardo Cunha que mais chamou atenção nesta segunda foi a de que estaria pobre, “em absoluta situação de penúria”. O ex-presidente da Câmara dos Deputados garantiu viver uma situação financeira delicada com o bloqueio dos seus bens.”Neste momento estou sem renda”, reclamou.

Num embate com o procurador da República Anselmo Lopes, o ex-presidente da Câmara dos Deputados irritou-se ao ser incitado por Lopes a reconhecer uma assinatura em uma folha anexada ao processo. O documento trazia uma planilha de Funaro com a distribuição de propina a políticos e empresários. “Faça perícia, comprove que é minha letra”, respondeu, recusando-se a olhar a rubrica.

Insinuando parcialidade nas investigações, Cunha atacou o procurador e classificou o ato como uma  “dobradinha de delator com Ministério Público”.

Veja como a cobertura ao vivo do depoimento de Eduardo Cunha: 

 

Vestindo terno azul marinho, gravata esverdeada e calça e sapatos sociais, o ex-presidente da Câmara iniciou sua defesa desmentindo versões apresentadas por Lúcio Funaro – apontado como operador do esquema – em oitiva realizada em 27 de outubro: “Ele mentiu”.

O ex-parlamentar garantiu também “não se lembrar” de ter pedido dinheiro de campanha para Michel Temer, como acusou Lúcio Funaro, em depoimento na semana passada. Na ocasião, o suposto operador do esquema no PMDB asseverou que Cunha teria repassado R$ 1,5 milhão ao presidente da República. “Não me lembro”, disse.

Mais tarde, ele declarou não ter pedido a Temer qualquer benefício para o empresário Henrique Constantino, um dos fundadores da Gol Linhas Aéreas. “Vamos ver se esse fato aconteceu ou não, é só quebrar o sigilo. Eu não pedi nada para Michel Temer sobre Constantino, isso nunca aconteceu, e nem liguei para agradecer”, afirmou.

“História da Carochinha”
Cunha e Funaro foram colocados frente a frente diante do juiz Vallisney. Enquanto o primeiro apresentava sua tese de defesa, o segundo apenas observava ao lado do seu advogado. Cunha negou ter recebido um Porsche do acionista da Gol Linhas Aéreas, Henrique Constantino, em troca de apoio na liberação de valores do fundo de investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) da Caixa. A acusação está registrada no depoimento de Funaro. “Ele nunca me deu carro de presente. Isso é história da carochinha”, afirmou.

Na semana passada, Funaro chegou a chamar o ex-presidente da JBS Joesley Batista de “ladrão” por não ter pagado uma suposta propina de cerca de R$ 80 milhões a ele, Cunha e Geddel, devido a operações no âmbito da compra da Alpargatas. Durante seu depoimento, Cunha negou a informação.

Quero deixar claro que o senhor Joesley não me deve nada. Me deve a minha dignidade, que foi roubada com as suas mentiras"
Eduardo Cunha, ex-deputado

O ex-presidente da Câmara subiu o tom ao falar do envolvimento do filho no escândalo. Exaltado, Cunha disse ter ficado “muito chateado” com a insinuação de Funaro ao contar ter pagado mesada de R$ 2 mil ao filho do ex-deputado. “Nem eu pago mesada para o meu filho. Isso mostra que não tem limite para as covardias dele [Funaro], para as mentiras dele”, rebateu Cunha.

O depoente também evitou responder a perguntas formuladas pelo advogado Bruno Espiñeira, representante de Lúcio Funaro: “Eu não estou aqui para fazer contraditório com advogado de defesa, eu vou apenas fazer a minha defesa”, resumiu, antes de partir direto para suas considerações finais. Subindo o tom, o defensor do operador financeiro afirmou que interromperia o depoimento, caso o ex-deputado falasse algo que Espiñeira considerasse injusto sobre Funaro. “Você é juiz agora para decidir como será?”, devolveu Eduardo Cunha.

Operação Sépsis
Os depoimentos dos réus em ação penal do caso FI-FGTS da Caixa são decorrentes da Operação Sépsis, desdobramento da Lava Jato e igualmente deflagrada pela Polícia Federal. No dia 26/10, no mesmo processo, foi a vez do ex-vice-presidente do banco federal Fábio Cleto prestar depoimento. Cleto disse ao juiz da 10ª Vara que teria partido do ex-presidente da Câmara dos Deputados sua indicação à vice-presidência da Caixa e acrescentou que Henrique Eduardo Alves validou a escolha.

A informação foi corroborada por Lúcio Funaro em seu depoimento na semana passada. Cunha ainda disse que Funaro faltou com a verdade ao acusar o presidente Michel Temer do recebimento ilícito de R$ 1,5 milhão do esquema. “Lúcio Funaro nunca teve acesso a Temer”, sustentou.

Preso há mais de um ano e respondendo pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e violação de sigilo funcional, Eduardo Cunha cumpre pena em Curitiba (PR), mas está em Brasília desde setembro para participar das oitivas na 10ª Vara. Na capital, permanece detido em uma cela da Delegacia de Polícia Especializada (DPE), no Parque da Cidade.

Ele deve retornar para Curitiba entre os dias 20 e 24 de novembro. O juiz Vallisney de Souza Oliveira atendeu pedido da defesa do ex-deputado para que Eduardo Cunha permaneça na cidade, tenha novas oportunidades de conversar com sua defesa e contribuir com a elaboração das alegações finais que seus advogados apresentarão ao processo. “[O depoimento] Foi positivo, mostrei meu ponto de vista, mas prova não tem nenhuma contra mim”, disse o ex-parlamentar ao deixar o prédio da Justiça Federal.

 

 

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