Análise: Doria tenta atrair antipetistas, mas evita a extrema-direita

De olho em 2022, tucano afina o discurso para atrair adversários do PT ao mesmo tempo que busca eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018

Foto: Rafaela Felicciano/MetrópolesFoto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 09/08/2019 8:45

Na eleição de 2018, o então candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) transitou sozinho na raia direita da política. Adversários como João Amoêdo (Novo) e Álvaro Dias (Pode) nem chegaram perto de ameaçar a liderança do capitão. Para 2022, pelos movimentos que faz, observa-se que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), procura um espaço no mesmo campo que deu vitória ao atual ocupante do Palácio do Planalto.

As declarações e os gestos feitos pelo tucano nas últimas semanas dão pistas sobre o discurso elaborado para as próximas eleições presidenciais. Percebe-se nas palavras de Doria, por exemplo, a intenção de distanciar-se da defesa que Bolsonaro faz da ditadura. Ao mesmo tempo, o governador acena para os evangélicos.

Ao sancionar uma lei que institui o Dia de Oração pelas Autoridades da Nação, Doria agrada esse setor do eleitorado, decisivo na vitória de Bolsonaro. Para quem pretende entrar na corrida ao Planalto daqui a três anos, a divisão dessa faixa dos votantes se apresenta como uma tarefa de estratégica e promissora.

Na outra direção, o governador de São Paulo investe contra o PT. Nessa quarta-feira (07/08/2019), Doria postou no Twitter uma resposta à presidente nacional do partido, deputada Gleisi Hoffmann (PR). A dirigente petista divulgara na mesma plataforma uma mensagem em que criticara a decisão da justiça de transferir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de Curitiba para o presídio de Tremembé (SP).

“Fique tranquila, ele será tratado como todos os outros presidiários, conforme a lei. Inclusive, o seu companheiro Lula, se desejar, terá a oportunidade de fazer algo que jamais fez na vida: trabalhar!”, escreveu o tucano.

Esse tipo de ataque tem o duplo efeito de excluir os eleitores simpáticos ao lulismo e, ao mesmo tempo, atrair os antipetistas, majoritariamente apoiadores do candidato do PSL em 2018. É uma opção que tende a agradar aos brasileiros que não querem a volta do PT ao poder e, também, não concordam com o governo Bolsonaro.

A três anos da próxima campanha para presidente, claro, todos os movimentos dos pretendentes ao Planalto ainda são meros ensaios que podem ou não se confirmar em 2022. Como governador de São Paulo, Doria se encontra em um posto privilegiado para tentar viabilizar uma candidatura competitiva para enfrentar o capitão e os outros adversários.

O tucano tem mecanismos, por exemplo, para atrair empresários brasileiros e, também, para fazer movimentos fora do país, como a viagem desta semana à China, onde busca parcerias na área de tecnologia. Também nesse campo, tenta se diferenciar de Bolsonaro, autor de desastradas declarações contra o país asiático.

Se os planos de Doria vão dar certo, somente se saberá na época da eleição. Até lá, no entanto, muitas variáveis indicarão a situação do país e a viabilidade das candidaturas. O potencial dos postulantes vai depender, entre outros aspectos, do desempenho do governador paulista e do presidente da República, além da evolução das pesquisas de opinião.

O comportamento dos partidos do campo da esquerda também terá peso na correlação de forças em 2022. Tudo isso será afetado, ainda, pelas decisões da Justiça que interferem na política, como a situação de Lula, preso em Curitiba. Tudo isso, finalmente, será julgado pelos eleitores na próxima campanha dos pretendentes ao Planalto.

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