Análise: Bolsonaro visita Arábia Saudita e Araújo ataca ditaduras

Sem coerência, chanceler reclama de regimes autoritários na América do Sul no dia que presidente se encontrou com dinastia do Oriente Médio

Foto, Michael Melo/MetrópolesFoto, Michael Melo/Metrópoles

atualizado 29/10/2019 12:12

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, costuma abrir mão da lógica em seus pronunciamentos. Desde o discurso de posse, surpreende brasileiros e estrangeiros com ideias desconectadas do pensamento diplomático cultivado há décadas no Itamaraty.

Nessa segunda-feira (28/10/2019), o chanceler subiu um degrau no desprezo pelos fatos. No mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) visitou um dos países com governos mais autoritários do mundo, Araújo defendeu uma América do Sul “sem ditaduras”.

O ministro postou este comentário no Twitter ao comentar a vitória do peronista Alberto Fernández na Argentina. Indiretamente, referia-se a nações como Venezuela e Cuba, apoiados pela esquerda brasileira.

No giro pelo Oriente Médio, Bolsonaro esteve na Arábia Saudita, país governado por uma dinastia que não respeita os direitos humanos e as mulheres têm direitos restritos. Não podem, por exemplo, falar com homens que não façam parte da família. Para abrir conta em banco, precisam da autorização de um parente do sexo masculino.

Em um lance de repercussão mundial, em outubro de 2018, o jornalista Jamal Khashoggi, colunista do The Washington Post, foi assassinado dentro do consulado saudita em Istambul. O príncipe herdeiro do país, Mohammed bin Salman, disse que a morte se deu sob sua responsabilidade, embora não tenha assumido o mando do crime.

Bolsonaro e Araújo nada veem de errado no regime da Arábia Saudita. Aplicam, nesse caso, o conceito de “pragmatismo” que criticam na esquerda.

O presidente e o ministro também fazem vista grossa com os governos dos outros dois países visitados pelo presidente brasileiro nessa segunda-feira (28/10/2019), Catar e Emirados Árabes. Ambos são governados por dinastias autoritárias. Menos restritivas do que na Arábia Saudita, mas nada comparáveis a democracias.

No mundo diplomático, de fato, as relações entre países muitas vezes são determinadas pelo pragmatismo. Enquanto foi presidente, por exemplo, Luiz Inácio Lula da Silva estreitou os laços com ditaduras africanas, como Burkina Faso e Guiné Equatorial.

Durante a ditadura brasileira, as barreiras ideológicas foram rompidas para facilitar o comércio com os regimes comunistas. Os Estados Unidos usam o mesmo princípio nas relações com China e Rússia, apesar das diferenças políticas.

No entanto, Araújo quer convencer os brasileiros de que tem apreço por democracia. Na cara dura, omite a visita de Bolsonaro pelos países governados por tiranias no Oriente Médio. Ignora também que tem como chefe um presidente que defende a ditadura militar e enaltece o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O chanceler não se preocupa com coerência. Ao que parece, fala para um público que não exige nexo entre as palavras e a realidade. O importante para essa turma é manter o discurso ideológico em tom máximo. Afinal, a eleição foi ganha com essa estratégia.

Para se ter uma ideia da insensatez da postura de Araújo e Bolsonaro, nem mesmo o presidente argentino, Maurício Macri, derrotado na tentativa de reeleição, desmereceu a vitória de Fernández. Outro que cumprimentou o ganhador da disputa foi o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo.

O presidente brasileiro e o chanceler preferem brigar com o país vizinho. Bolsonaro disse que nem cumprimentaria Fernández. Falta explicar quem ganha com isso.

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