Análise: Bolsonaro transforma o PSL em bagaço de laranja

Ao responder a cidadão que o abordou, presidente demonstra disposição de descartar partido pelo qual se elegeu para o Planalto

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 08/10/2019 23:42

O presidente Jair Bolsonaro gosta de viver perigosamente. Dia sim, dia não – entre outros atos –, o capitão surpreende o público com gestos e declarações de alto poder desagregador. Nessa terça-feira (08/10/2019), a vítima foi o PSL, partido pelo qual ele se elegeu em 2018.

Abordado por um homem interessado em se candidatar em futuras disputas, Bolsonaro cochichou no ouvido do cidadão: “Esquece o PSL, tá ok? Esquece”. Na sequência, o chefe do Executivo revelou o que pensa a respeito do presidente nacional do partido, Luciano Bivar.

“O cara está queimado para caramba lá. Vai queimar o meu filme. Esquece esse cara, esquece o partido”, insistiu o presidente.

Assim, sem atenuantes, Bolsonaro inflamou a relação com o PSL. Dirigentes da legenda reagiram, de imediato, reagiram indignados. ““O PSL é o partido do presidente, é o único partido que é 100% fiel a ele em todas as votações. Todos os pedidos são atendidos pela direção do partido, eu estou perplexo”, surpreendeu-se o líder do partido no Senado, Major Olímpio (SP).

No mesmo rumo, o líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), aumentou o tom da reclamação. “Como você fala do quintal alheio se o seu quintal está sujo? As candidaturas em Minas Gerais e Pernambuco estão sendo investigadas. Mas o filho do presidente também”, rebateu o deputado.

Waldir tocou em um ponto delicado dessa balbúrdia. Quando fala em “filho do presidente”, o líder se mostra disposto a, dentro de suas possibilidades, tirar apoio do partido ao senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), envolvidos nos rolos do ex-assessor Fabrício Queiroz.

Desde que se descobriram as “operações atípicas” em contas correntes de Queiroz, Flávio se tornou um problema para o discurso de combate à corrupção usado pelo PSL nas eleições de 2018. Para se defender das acusações, o Zero 1 (como é chamado pelo pai) aliou-se no Congresso a políticos enrolados com a Justiça. Assim, tenta se salvar das denúncias que o atingem.

Bolsonaro destrói as pontes com o PSL, tudo indica, por causa do desgaste do partido com as denúncias sobre uso de candidaturas-laranja no ano passado. No meio deste escândalo, está o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, acusado de desviar dinheiro de mulheres inscritas na cota feminina obrigatória da legenda.

Nas últimas notícias sobre este fato, um ex-assessor do ministro afirma que parte da verba pode ter contribuído, também, para a campanha de Bolsonaro. Se comprovado, o presidente teria cometido crime eleitoral na disputa pelo Palácio do Planalto.

Ao atacar Bivar, o presidente reforça a impressão de que o dirigente nacional da sigla está envolvido com as irregularidades eleitorais investigadas pela Polícia Federal. Sem dó, com a intenção de escapar das lavaredas, Bolsonaro empurra o aliado para a fogueira.

Difícil imaginar como esse comportamento pode dar certo para o chefe do Executivo. Ao tentar se livrar das encrencas do PSL e, ao mesmo tempo, salvar o filho das suspeitas sobre Queiroz, o capitão faz um jogo arriscado, pois demonstra intenção de tentar sair limpo do lamaçal que ajudou na sua eleição.

Do ponto de vista do partido, as atitudes do chefe do Executivo têm os contornos de uma descarada traição. Para usar uma expressão popular e, ao mesmo tempo, fazer um trocadilho, pode-se dizer que Bolsonaro trata o PSL como bagaço de laranja – aquela parte da fruta comumente jogada fora depois de sugada até o limite.

Se continuar a descartar aliados, pela lógica, o presidente ficará cada vez mais sozinho. Até que se prove o contrário, essa é uma rota segura para o fracasso de um governo.

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