PEC que permite venda de plasma avança e ameaça soberania do SUS

Com lobby do setor privado, PEC foi aprovada na CCJ do Senado e segue ao plenário. Entidades públicas criticam

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Jonathan Brady/PA Images/Getty Images
Foto colorida de plasma sanguíneo - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida de plasma sanguíneo - Metrópoles - Foto: Jonathan Brady/PA Images/Getty Images

Com uma campanha forte do setor privado, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, na última quarta-feira (4/10), uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que permite a venda do plasma do sangue humano. Embora governo e entidades da saúde se manifestem contra essa medida, a matéria foi aprovada por 15 votos a 11, e o texto segue agora ao plenário da Casa.

A Constituição Federal proíbe qualquer tipo de comercialização de órgãos, tecidos e substâncias humanas, e define que o sangue pode ser coletado para fins de transplante, pesquisa e tratamento. O texto, no entanto, altera a Constituição e passa a permitir a venda do plasma, que é parte do sangue. Na prática, a matéria coloca em risco a soberania do Sistema Único de Saúde (SUS) na questão, avaliam os críticos.

O plasma é usado para produção de medicamentos hemoderivados, como imunoglobulina, indicados para pacientes com alguma imunodeficiência.

O relatório aprovado na CCJ, feito pela senadora Daniella Ribeiro (PSD-PB), vice-líder do governo no Senado, permite que a iniciativa privada realize a coleta, o processamento e a comercialização de plasma humano “para fins de uso laboratorial, desenvolvimento de novas tecnologias e produção de medicamentos hemoderivados”.

Daniella ressalta que, ao falar em comercialização, o texto se refere à indústria, e não ao cidadão. Apesar das negativas da relatora, porém, o texto como está permite que, em vez de doar, a população comercialize seu sangue. A questão foi amplamente criticada por alguns senadores, como Renan Calheiros (MDB-AL), que classificou a proposta como um “atraso civilizatório”.

O senador Marcelo Castro (MDB-PI) afirmou não ser contrário à autorização para que a indústria farmacêutica também manipule o plasma e, assim, produza medicamentos hemoderivados a serem consumidos no Brasil. Entretanto, segundo ele, ao permitir a venda do plasma, o projeto vai esvaziar a doação de sangue no Brasil e deixar o SUS desabastecido de sangue e de medicamentos.

O texto ainda prevê que esses medicamentos produzidos pela iniciativa privada sejam destinados “preferencialmente” ao SUS, o que não garante exclusividade ou mesmo uma parte específica da produção à rede pública.

Atuação da Hemobrás

Ao longo da semana, a Associação Brasileira de Bancos de Sangue (ABBS), que representa a iniciativa privada, fez uma ampla campanha, nos principais jornais do país, ressaltando que o Brasil não processa o próprio plasma. “Temos que importar derivados de plasma a preços altos para atender doentes crônicos. Isso tem que acabar”, diz o texto publicado nas capas dos jornais.

A campanha foi criticada pela Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), estatal criada em 2004 e vinculada ao Ministério da Saúde. Apesar de não processar o plasma no Brasil, a Hemobrás tem uma parceria com uma multinacional que faz este trabalho. A empresa brasileira coleta o plasma e o envia à Europa, onde a Octapharma fabrica os medicamentos hemoderivados encaminhados, em seguida, ao Brasil.

Isso ocorre há mais de 15 anos e, até hoje, o complexo industrial da Hemobrás não está pronto. Chefe do Serviço de Relacionamento da Hemorrede (SRH), Frederico Monteiro ressaltou que a intenção é expandir o trabalho da Hemobrás para que a empresa passe a produzir tudo localmente, sem necessidade de envio ao exterior.

Monteiro afirmou que atualmente tanto a rede pública quanto a privada são abastecidas por sangue coletado por meio de doação. De acordo com ele, o projeto ameaça esse procedimento e a soberania do SUS no assunto.

PEC que permite venda de plasma avança e ameaça soberania do SUS - destaque galeria
4 imagens
Plasma sanguíneo usado para produção de medicamentos
Relatora da PEC do Plasma, Daniella Ribeiro (PSD-PB) defende que matéria é necessária para que haja produção de medicamentos hemoderivados no Brasil
Senador Nelsinho Trad (PSD-MS), autor da PEC do Plasma
Paciente recuperado do coronavírus doa amostras de sangue para extração de plasma. Junho de 2020, Iraque
1 de 4

Paciente recuperado do coronavírus doa amostras de sangue para extração de plasma. Junho de 2020, Iraque

Ameer Al Mohammedaw/picture alliance/Getty Images
Plasma sanguíneo usado para produção de medicamentos
2 de 4

Plasma sanguíneo usado para produção de medicamentos

Jonathan Brady/PA Images/Getty Images
Relatora da PEC do Plasma, Daniella Ribeiro (PSD-PB) defende que matéria é necessária para que haja produção de medicamentos hemoderivados no Brasil
3 de 4

Relatora da PEC do Plasma, Daniella Ribeiro (PSD-PB) defende que matéria é necessária para que haja produção de medicamentos hemoderivados no Brasil

Lula Marques/ Agência Brasil
Senador Nelsinho Trad (PSD-MS), autor da PEC do Plasma
4 de 4

Senador Nelsinho Trad (PSD-MS), autor da PEC do Plasma

Pedro França/Agência Senado

“Nenhuma bolsa de sangue ou plasma é cobrada. O sangue é um tecido e não tem preço. Este projeto é inconstitucional e não vai fortalecer o abastecimento de medicamentos, principalmente para os pacientes do SUS. Pelo contrário, ele vai gerar um risco de desabastecimento, porque o assunto vai ser tratado de uma forma comercial”, disse Frederico Monteiro ao Metrópoles.

Baixa produção

Atualmente, a capacidade de produção da Hemobrás está abaixo da necessidade do Ministério da Saúde. Em fevereiro, a pasta computava que a média de consumo de imunoglobulina, por exemplo, era de 63.923 mil frascos por mês. De janeiro a agosto, a empresa pública produziu, por meio de uma parceria privada, apenas 99 mil frascos, insuficiente para dois meses de abastecimento da rede pública.

Autor do projeto, Nelsinho Trad (PSD-MS) falou sobre isso ao defender a aprovação da matéria. Assim como outros defensores da proposta, ele ressaltou que há escassez na produção de medicamentos derivados do plasma e que a permissão da venda desse material, com manipulação da iniciativa privada, pode ser a solução.

É preciso oportunizar para que a iniciativa privada faça algo que, há 18 anos, a Hemobrás tenta fazer e não faz. Queremos fortalecer o SUS, tirar o peso do SUS nisso. Queremos técnica moderna, nova, para tirar o plasma e produzir os medicamentos necessários”, disse Trad.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também defendeu o projeto e disse que o texto vai acabar com o monopólio de algumas empresas que fornecem hemoderivados ao Brasil.

Reação contrária

Antes da aprovação do texto na CCJ, o ministro Alexandre Padilha foi ao Senado e fez um apelo, que não surtiu efeito. “Essa PEC autoriza empresas privadas a captarem o sangue humano e venderem produtos desse sangue. É um verdadeiro vampirismo mercadológico: autorizar empresa privada a sugar o sangue da população e a transformar em produto a ser vendido, com o discurso de comprar esses produtos para tratar pacientes privados”, disse.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também se manifestou, apontando que a aprovação do projeto “pode causar sérios riscos à Rede de Serviços Hemoterápicos do Brasil e ao Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Hemoderivados”.

“A comercialização de plasma pode trazer impacto negativo nas doações voluntárias de sangue, pois estudos sugerem que, quando as doações são remuneradas, as pessoas podem ser menos propensas a doar por motivos altruístas”, afirmou. Para a fundação, é necessário aprimorar a política nacional de sangue, fortalecendo a Hemobrás, para que ela possa produzir no máximo da sua capacidade.

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) também esteve no plenário da CCJ pedindo a rejeição do texto. Ainda não há data prevista para a votação no plenário da Casa.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?