Pastor lobista pediu R$ 40 mil em troca de obra do MEC, diz prefeito

Arilton Moura solicitou dinheiro para conseguir recursos para escola técnica em Boa Esperança do Sul (SP), segundo prefeito da cidade

atualizado 25/03/2022 8:14

Milton Ribeiro, ministro da Educação, ao lado de prefeito Manoel do Vitorinho, de Boa Esperança do Sul (SP). Ambos usam terno e Ribeiro está sem máscara - MetrópolesArquivo pessoal

Goiânia – O pastor Arilton Moura teria pedido um depósito de R$ 40 mil na conta da igreja para conseguir verba do Ministério da Educação (MEC) para fazer uma escola técnica em Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo.

A revelação foi feita pelo prefeito da cidade, Manoel do Vitorinho (PP), que se junta a outros colegas que revelaram ter recebido pedido de propina do pastor. Arilton é assessor de Assuntos Políticos da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil.

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Arilton e o presidente da convenção, o pastor Gilmar Santos, são apontados como integrantes de um “gabinete paralelo”, que tinha influência dentro do MEC, revelado pelo jornal Estado de S. Paulo.

Ajuda selecionada

Manoel do Vitorinho contou ao Metrópoles que o pedido de propina aconteceu após uma reunião no MEC entre prefeitos e o ministro da Educação Milton Ribeiro, em Brasília (DF), no dia 18 de março de 2021.

Depois da reunião, o prefeito foi chamado para um almoço no hotel Hotel Grand Bittar, onde foi apresentado para Arilton, que levou ele para se sentar em uma mesa na parte externa do restaurante.

“Ele falou assim: “Você sabe como funciona, não dá para ajudar todos os municípios”. Eu falei: “Tá”. Ele falou: “Se o senhor quiser, eu consigo agora, através de um ofício e a gente consegue uma escola profissionalizante para o seu município”, disse o prefeito paulista.

“Aí eu falei: “Escola profissionalizante não é nossa prioridade, nossa prioridade é creche, ampliação e ônibus”. Ele falou: “Mas eu consigo a escola profissionalizante agora, só que o senhor precisa colocar um depósito de R$ 40 mil na conta de uma igreja evangélica”, revelou Manoel do Vitorinho.

Medo de denunciar

Ao ser questionado sobre o motivo de não ter denunciado a situação antes, o prefeito de Boa Esperança do Sul disse que não teve coragem. Ele disse que recusou a proposta, dizendo que não era assim a maneira como ele trabalhava.

“Na verdade, primeiro, estava no meu terceiro mês de mandato, mega assustado, pensei: “Se falar isso vão achar que sou louco”. Quando eu assisti a reportagem e vi, meu, isso é real! Eu não tive coragem na época”, disse o prefeito.
Reunião sem propósito

Manoel do Vitorinho contou que começou a conversa com Arilton perguntando sobre o propósito da reunião com o MEC. Ele disse que a palestra do ministro Milton Ribeiro no MEC teve como tema central o combate à corrupção e se falou sobre um sistema para cadastrar demandas das cidades, mas esse sistema não estava pronto.

Além disso, foi distribuída uma senha para os prefeitos tirarem dúvidas com assessores. O prefeito paulista contou que com essa senha falou com uma pessoa que não se recorda e reclamou da falta de propósito da reunião.

“Eu falei: “Andamos em plena pandemia para uma reunião totalmente sem nexo”. (…) Ele falou: “Não quer almoçar no restaurante? Vai estar o pastor Arilton e o pastor Gilmar, vai poder falar mais sobre as demandas dos municípios”. Esse cara que me apresentou o pastor Arilton”, detalhou o prefeito de Boa Esperança do Sul.

Outras denúncias

O prefeito de Bonfinópolis (GO), Kelton Pinheiro (Cidadania), também contou que o pastor pediu propina com desconto, totalizando R$ 15 mil, para conseguir recursos do MEC. Já o prefeito de Luis Domingues (MA), Gilberto Braga (PSDB), disse que pediram 1 kg de ouro para liberar verbas da Educação.

Áudios revelados pela Folha de S. Paulo mostram o ministro Milton Ribeiro dizendo que privilegia pedidos de amigos de determinados pastores a pedido do presidente Jair Bolsonaro e cita o “pastor Gilmar” como um dos que seriam privilegiados.

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