“O ‘sim’ de uma família pode salvar cerca de oito vidas”, diz especialista sobre doação de órgãos

Na pandemia de Covid, o presidente do Instituto Brasileiro do Fígado, Paulo Bittencourt, viu despencar o número de doadores de órgãos

atualizado 29/09/2021 15:13

Enis Aksoy/GettyImages

Rio de Janeiro – Aos 49 anos, o aposentado Adailto da Silva tem um motivo especial para ser grato todos os dias. Em 2014, dois anos após ter sido diagnosticado com câncer no fígado, ele recebeu um novo fígado de um doador de órgãos.

“Ele me deu a vida. O ‘sim’ daquela família me deu vida. E eu agradeço e rezo por ele todos os dias, mesmo não sabendo quem foi”, disse, em entrevista ao Metrópoles.

Esse “sim” tem poder transformador em mais de uma pessoa. “O ‘sim’ de uma família pode salvar cerca de oito vidas”, diz o hepatologista e presidente do Instituto Brasileiro do Fígado (Ibrafig), Paulo Bittencourt, também ao Metrópoles.

Apesar de a morte ser muito dolorosa, o médico destaca que o posicionamento da família é essencial, pois, de acordo com a legislação brasileira, só ela tem o poder de autorizar a doação.

Pesquisa Datafolha realizada entre 2 e 7 de agosto indica que sete em cada 10 brasileiros afirmam ter o desejo de doar seus órgãos, mas informam que não avisaram a suas famílias.

Por outro lado, cerca de 40% das famílias se recusam a realizar a doação, de acordo com o médico. O índice é muito alto quando comparado a países europeus, como a Espanha, com taxas equivalentes a 10%.

O cenário se tornou ainda mais dramático com a pandemia de Covid. “Vimos o número de doações cair para valores bem abaixo da meta necessária (24 por milhão) para reduzir a morbimortalidade das pessoas em fila de espera”, diz Bittencourt.

“Para quem precisa transplantar um rim, o indivíduo ainda pode fazer a diálise, em que uma máquina exerce a função que seu órgão não exerce mais, por algum tempo e ainda manter sua vida. Com outros órgãos, a espera é mais dramática, porque é uma luta contra o tempo”, explica.

A espera

Adailto relembra o período em que ficou na fila de espera. Ele foi diagnosticado com câncer de fígado, em 2012, em decorrência de uma hepatite B que teve em 2008, mesmo tendo feito tratamento na época. “A partir daí, tive que entrar na fila, porque o lugar que o tumor ficou não tinha como tirar”, relembra.

“A espera na fila exige muito do nosso psicológico, mas hoje posso agradecer. Qualquer pessoa pode precisar de um transplante, qualquer um. Nós, que recebemos o transplante, sabemos como é difícil, mas o ‘sim’ pode significar um recomeço para outra pessoa”, afirma. “Eu tenho muita gratidão pela família do meu doador, todos nós temos”, completa.

A baiana Misly Ingred, de 19 anos, compartilha o mesmo sentimento. A jovem teve seu primeiro transplante realizado aos 4 anos de idade, também devido a uma hepatite. Para ela, a situação foi mais crítica e precisou de urgência.

Na época, a família teve de ir às pressas para São Paulo em busca de um tratamento. Descoberto o problema, o pai de Misly se prontificou fazer a doação para a filha, que já estava em coma, em razão da falência superaguda do fígado – que pode levar a morte de, pelo menos metade dos pacientes com o quadro.

Ao longo destes 15 anos, o organismo de Misly vem rejeitando o fígado doado pelo pai. Por essa razão, a jovem voltou para a fila de transplantes há cerca de dois anos e afirma que a possibilidade de doação traz esperança.

“Faço tratamento no Hospital das Clínicas, em São Paulo, hoje em dia, a gente teve que se mudar, porque eu piorava do nada e precisava vir correndo. Hoje, entendo que a doação é para o melhor e saber que existem pessoas que podem doar e fazer uma boa ação como essa me dá esperança”, declara.

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