“O presidente está fazendo o jogo do vírus”, diz diretor do Butantan

Dimas Covas avalia que o Brasil viverá um momento extremamente difícil no mês de abril, em relação à pandemia

atualizado 05/04/2021 13:04

Dimas Covas, presidente ButantanColetiva de imprensa sobre a decisão da Anvisa de suspender os testes com a CoronavacRafaela Felicciano/Metrópoles

São Paulo – O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) faz “o jogo do vírus”.

“O presidente está fazendo o jogo do vírus. Quando ele sai e leva seus seguidores para o meio da praça, ele está fazendo o jogo do vírus. Expõe as pessoas ao vírus: os resistentes sobrevivem e os outros morrem”, declarou.

Ele disse acreditar também que o Brasil chegará à triste marca diária de 5 mil óbitos devido ao novo coronavírus.

“Estamos num momento em que a velocidade de transmissão ainda é muito alta. Os especialistas apontavam que estávamos caminhando para isso, mas a opinião geral da população não era essa. E então cruzamos a casa dos 2 mil, já passamos da casa dos 3 mil, estamos indo para os 4 mil e vamos chegar a 5 mil mortes por dia”, pontuou Dimas ao jornal Valor Econômico.

Para Dimas, a vacina é um recurso adicional no combate à pandemia. O diretor frisa que é urgente a diminuição da transmissão. E enfatiza: “A transmissão será diminuída com a tomada de medidas amargas de afastamento social”.

Ele considera que o ideal para controlar a pandemia é “colocar toda a população por 14 dias dentro de casa”, embora entenda que esse seja o desafio atual. “Não se pode, por princípio, dizer que é impossível. Porque, assim, estamos admitindo que vamos continuar tendo esse número de casos, de internações e de óbitos”, ponderou.

Dimas ainda explicou que, para que isso ocorra, é necessário coordenação na política geral do país, no combate à pandemia. E que somente assim será possível uma estabilização efetiva de casos e mortes por Covid-19.

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Quanto à vacina, o diretor do Butantan acredita que, até julho, o Brasil conseguirá imunizar a população com mais de 60 anos e, possivelmente, parte das pessoas com idade acima de 50 anos. “É isso que nós vamos ter até o meio do ano. Estamos falando de 40 ou 50 milhões de pessoas. E 100 milhões de doses de vacinas”, afirmou Dimas.

Dimas não é otimista em relação à aquisição de vacina de diversos laboratórios, até o fim do ano, conforme previsto pelo governo federal. Para ele, a demora do Ministério da Saúde em definir a aquisição de imunizantes deixou o país à mercê da disponibilidade do fornecedor.

“O ministério está tendo dificuldade de arrumar vacinas – e não é só a do Butantan. Há dificuldades em relação a todas as vacinas exatamente por isso. Todo mundo já se comprometeu, todos têm seus compromissos. Avançar nisso é muito difícil, porque a demanda mundial é muito grande”, ressaltou.

Dimas ainda apontou que o avanço no número de casos e mortes por Coronavírus no país possivelmente está relacionado a novas variantes.

“Em janeiro, a epidemia assumiu outros contornos. Não era o que estava previsto. Entre janeiro e fevereiro, apareceram focos explosivos em Manaus, em outros lugares, inclusive no estado de São Paulo, em Jaú, em Araraquara. Essa mudança tão rápida na dinâmica epidêmica só pode ser explicada por algum outro fator, que é a variante”, explicou.

Sobre o novo ministro Marcelo Queiroga, Dimas avalia que o titular da Saúde só será eficaz no combate à pandemia se o ministério tiver independência para atuar.

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