
Na contramão da média do país, mortes de indígenas por Covid-19 crescem 41% em agosto
No total, ao menos 798 indígenas já morreram em decorrência da pandemia em seus territórios

Além do embate provocado pelo marco temporal, que restringe o direito de ocupação de terras indígenas a quem puder comprovar que estava no território em 1988, povos indígenas de todo o país sofrem com o avanço da Covid-19 nas terras onde moram.
Até o momento, pelo menos 798 morreram em decorrência da pandemia em territórios indígenas, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena. O Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena contabiliza mais 396 óbitos, o que totalizaria 1.194 mortes. Segundo a organização, o número diverge porque a Sesai somente anota as mortes que ocorrem em terras indígenas já homologadas.
Em agosto, 41 óbitos foram registrados em terras indígenas, um aumento de 41% em relação ao mês anterior. O acumulado mensal é o maior desde março deste ano, quando 51 indígenas foram vítimas da Covid-19. O aumento vem na contramão da situação atual do país, que há 10 dias está com a média móvel de mortes em queda, com 643 óbitos a cada 24 horas.
Dados mostram que casos da doença já foram notificados em 163 povos, o que representa 63,6% dos povos conhecidos e contabilizados no Brasil. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), há 256 etnias no país. O número não pode ser considerado exato devido às dificuldades enfrentadas para se produzir um censo das populações indígenas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesJá em casos confirmados, dos 58.692 notificados entre indígenas, 89,9% ocorreram naqueles que vivem em territórios demarcados. Os dados são da plataforma de monitoramento Covid-19 e os Povos Indígenas, mantida pelo ISA, e foram analisados pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles.
Segundo o Ministério da Saúde, 355.463 indígenas foram vacinados com a primeira dose, o que representa 87% da população. Já entre os imunizados, o total é de 80% com a segunda dose ou a dose única aplicada.
A situação de demarcação e proteção das terras indígenas tem mostrado relação direta com o avanço da pandemia entre esses povos. Um exemplo que ganhou repercussão recente foi o dos infectados na Terra Indígena Yanomami, que convivem com a pressão de invasões, violência e do garimpo.
Entenda o que é o marco temporal
O marco temporal é uma interpretação defendida, principalmente, por ruralistas e setores interessados na exploração das terras indígenas. O dispositivo restringiria os direitos constitucionais dos povos originários, na avaliação de indígenas e defensores da causa. De acordo com ele, essas populações só teriam direito a terra se estivessem sob sua posse no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.
O tema é polêmico, e representantes de povos de todo o país estão acampados em Brasília para acompanhar o debate e protestar contra a tese do marco temporal e o garimpo ilegal.
O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) começou a ouvir, na quarta-feira (1º/9), as sustentações orais no âmbito do julgamento que definirá o futuro das demarcações das terras indígenas no Brasil.



