Pesquisadora do Inpe sobre desmate da Amazônia: “Estamos plantando seca”

Artigo publicado por Luciana Gatti descobriu que Amazônia emite, por ano, 0,29 bilhão de toneladas de CO² na atmosfera a mais do que absorve

atualizado 20/07/2021 20:47

Floresta amazonica incendio desmatamento crimeErnesto Carriço/NurPhoto via Getty Images

Coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a pesquisadora Luciana Gatti afirma, ao Metrópoles, que o Brasil tem “plantado seca” com o avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia.

Gatti é autora do artigo científico “Amazônia como fonte de carbono ligada ao desmatamento e mudanças climáticas”, publicado na quarta-feira (14/7) na revista Nature (leia aqui o documento, em inglês).

O estudo descobriu que, devido a desmates e queimadas, a Amazônia emite, anualmente, 0,29 bilhão de toneladas de carbono (CO²) na atmosfera para além do que consegue absorver. Na teoria, no entanto, era para ocorrer o contrário: absorver mais do que emitir. “Isso significa que nós estamos contribuindo para as mudanças climáticas”, afirma Gatti.

Pesquisadora do Inpe, Luciana Gatti
Pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe, Luciana Gatti

Números do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) mostram que, até 2020, cerca de 729 mil quilômetros quadrados (km²) já foram desmatados na Amazônia, o que corresponde a 17% do bioma. Desse total, cerca de 300 mil km² foram desflorestados nos últimos 20 anos.

Entre as mudanças climáticas apontadas pela pesquisadora, está a escassez de chuvas.

O Brasil registra, em 2021, o menor índice de chuvas em 91 anos. Por isso, o sistema elétrico do país tem sofrido com reservatórios cada vez mais vazios. Logo, a capacidade de geração fica menor, e a conta de luz, mais cara.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) revisou, no último dia 29, o valor da bandeira vermelha patamar dois de R$ 6,24 a mais a cada 100 quilowatts/hora (kWh) consumidos para R$ 9,49 a mais a cada 100 kWh – uma alta de 52%.

“O desmatamento está só batendo recorde, a queda de chuvas está só batendo recorde. As acelerações são bem coincidentes. É esse o problema, pois as árvores ajudam a repor essa chuva. Eu, particularmente, acredito que, para o Brasil, o efeito maior vem do desmatamento. Então, nós estamos plantando seca”, avalia Gatti.

A seguir, confira os principais pontos da entrevista:

Qual o resultado da pesquisa?

O principal resultado é que finalmente conseguimos descobrir qual é o balanço de carbono da Amazônia. Foi um esforço de mais ou menos 20 anos, uma grande quantidade de cientistas tentando um monte de estratégias diferentes de como medir, para tentar responder o que a Amazônia representa para o planeta. Então, a floresta, todo ano, joga na atmosfera 0,3 bilhão de toneladas de carbono.

A queimada emite quatro vezes mais do que o resto está removendo da atmosfera. Então, se não tivessem as queimadas, a Amazônia estaria conseguindo retirar da atmosfera 0,13 bilhão de toneladas de carbono por ano. Isso é importante dizer. Não é que a Amazônia só joga carbono na atmosfera. A floresta ainda consegue remover carbono, mas a gente está emitindo muito mais do que a floreta dá conta de tirar. Quatro vezes mais, de maneira geral.

Como o estudo foi feito?

A estratégia do nosso grupo foi usar aviões de pequeno porte para fazer a medida. Só que a gente não mediu na horizontal, mas na vertical; coletava como se fosse uma coluna de ar. Com isso, a gente consegue medir qual foi o fluxo de carbono das massas de ar que chegaram ali. Então a gente calcula quanto o ar tinha de concentração antes de entrar no continente, e, depois, a diferença entre a concentração que tinha antes. Essa concentração que a gente mediu é o que aconteceu ao longo desse caminho. Imagina uma parcela de ar viajando, passa por uma região que está emitindo carbono, outra está absorvendo carbono, e quando chega lá, a gente vê a resultante de todos os processos.

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Foram quantos anos de estudo?

Nove anos. E por que a gente estudou nove anos? Porque a gente avaliou uma variação muito grande ano a ano. Então, se eu pegasse uma série de três anos, por exemplo, se tem um ano muito extremo, muito anormal, essa média pode não representar a média da Amazônia. Agora, com nove anos, temos uma média bacana e podemos dizer que a Amazônia, todo ano, joga na atmosfera 0,3 bilhão de toneladas de carbono.

Na prática, o que significa dizer que se está emitindo mais do que a Amazônia consegue retirar?

Significa que nós estamos contribuindo para as mudanças climáticas. Era para a Amazônia estar compensando parte das mudanças climáticas. Era para estar ajudando a mudar menos o clima, pois era para retirar uma parte desse CO². Ela realmente retira uma parte, mas a gente, estupidamente, joga mais CO² na atmosfera do que a floresta dá conta de retirar. E isso o mundo não sabia. Até desconfiava, mas não sabia.

Uma dessas mudanças climáticas que a senhora cita seria a incidência menor de chuvas?

Exatamente. A região nordeste da Amazônia está 37% desmatada. Com 37% a menos de árvores, até a precipitação acumulada no ano todo já perdeu 9% de chuva. Até a estação chuvosa já perdeu precipitação, principalmente por causa de janeiro: 11%. E o pior de tudo é o que estou chamando de pico da estação seca, que é quando mais se tem queimadas, ou seja, agosto, setembro e outubro – perda de 34% de chuva. Quando a gente vai ver a temperatura nesse período de agosto a outubro, cresceu 1,9° Celsius.

Já ao se analisar o sudeste da Amazônia, que está 28% desmatado, não vemos mais perda de chuva até na estação chuvosa; estamos com a precipitação média anual estável. Porém, na estação seca, perdeu 24% de chuva. Agora, olha o aumento da temperatura na estação seca: mais 2,5° Celsius. Aqui tem quatro décadas. Ou seja, apesar de a parte de cima da floresta ser mais desmatada, o aumento de temperatura não é tão alto, pois tem processos que compensam. Já a parte sudeste não tem muito rio e está se desmatando cada vez mais, então tem menos evapotranspiração.

Quando vamos ver os resultados dessas mudanças climáticas?

Nós já estamos vendo isso hoje. Nós temos dois processos acontecendo. Um global, que são as mudanças climáticas, e um regional, que é o desmatamento, que está afetando muito. Desde 2019, o desmate na Amazônia deu uma disparada, e a gente viu ano a ano essa chuva reduzir cada vez mais. O desmatamento está só batendo recorde, a queda da chuva está só batendo recorde. As acelerações são bem coincidentes. É esse o problema, pois as árvores ajudam a repor essa chuva. Eu, particularmente, acredito que para o Brasil o efeito maior é do desmatamento – e não as mudanças globais. Então, nós estamos plantando seca.

Então a crise hidrológica que estamos vivendo hoje poderia ser evitada?

Vamos pensar nesse presente divino que Deus nos deu, que é a Amazônia. Aquela imensidão de floresta jogando um monte de vapor de água para a atmosfera, e com isso resfriando a temperatura. A floresta é a nossa garantia, a nossa proteção contra as mudanças climáticas. Ela pode não só desacelerar como, ainda, amenizar as mudanças climáticas para a gente. Mas, com o desmatamento, estamos fazendo o inverso. Não só estamos matando a nossa proteção como estamos acelerando as mudanças climáticas, e, ainda por cima, estamos ajudando a ter menos chuvas, a aumentar a temperatura. É a tal da bola de neve.

E aí, quando você pensa que áreas muito degradadas emitem 10 vezes mais carbono que as menos degradadas, a gente está acelerando, acelerando e acelerando as mudanças climáticas. Então, os desmatamentos e as queimadas na Amazônia, que era o nosso tampão climático, estão provocando uma aceleração nos prejuízos.

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