Morte em ação contra o desmatamento inflama ânimos contra o Ibama

Homem de 52 anos foi morto durante ação contra o desmatamento e caso está sendo explorado politicamente por críticos ao órgão ambiental

atualizado 05/02/2020 8:56

Igo Estrela/Metrópoles

A morte de um homem durante uma batida do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Roraima está sendo usada por políticos da Região Norte como justificativa para questionar as ações do órgão contra o desmatamento ilegal.

Um camponês de 52 anos foi baleado na nuca na zona rural de Rorainópolis no último dia 31 de janeiro. Desde então, o caso tem causado reações inflamadas nas redes sociais e grupos de aplicativos de mensagens, além de ter chegado à tribuna do Senado nesta terça-feira (04/02/2020), em discurso do senador Telmário Mota (Pros-RR).

“Nem é o papel do Ibama que eu questiono, mas a maneira como esses fiscais estão desempenhando esse papel, com extrema truculência, chutando portas de pessoas humildes e até chegando atirando, como nesse caso”, disse Mota em entrevista ao Metrópoles.

A vítima dessa ocorrência é Francisco Viana da Conceição, que tinha 52 anos. Ele levou um tiro na nuca e, apesar de ter sido levado a um hospital em viatura do próprio Ibama, não resistiu. A morte causou comoção imediata na pequena cidade do interior e os fiscais tiveram de deixar o local sob forte esquema de segurança. Veja nos vídeos feitos por moradores:

Em nota oficial, o Ibama tratou Conceição como “madeireiro ilegal” e afirmou que agentes da PM de Roraima que acompanhavam a operação responderam quando as equipes foram recebidas a tiros. Segundo o órgão, dois homens foram flagrados em área com “sinais de exploração recente, como ramais de arraste, pátios de estocagem, toras de alto valor comercial e tocos” e que foi dada a voz de prisão, que não teria sido respeitada. “Ambos se refugiaram na mata e abriram fogo contra os policiais, que reagiram”, diz a nota.

A versão é contestada pelo senador Telmário Mota, que alega ter apurado o caso. “O rapaz que eles mataram foi contratado pela dona de uma área pequena para aproveitar restos de uma extração de madeira e fazer cerca de curral. Ele chamou um amigo para ajudar, eram dois trabalhadores muito humildes”, garante.

“E o que o sobrevivente diz é que eles chegaram atirando, nunca houve troca de tiros. Tanto que Francisco foi baleado na nuca. Ele estava fugindo”, afirma.

O parlamentar conta também que o sobrevivente está “traumatizado e amedrontado”. “Está na casa de parentes e passa gente estranha. Ontem [segunda] mesmo foi lá um homem de moto, sem tirar o capacete, e disse que ia tirar uma foto”, afirma.

Até mesmo o governo de Roraima, comandado por Antonio Denarium (PSL), informou em nota que vai pedir ao Ministério do Meio Ambiente “resposta formal sobre essa ação que vitimou um trabalhador”. A Polícia Federal iniciou uma investigação para apurar as circunstâncias da morte.

Enquanto isso, o caso tem sido explorado com críticas ao tipo de política ambiental do Ibama. É o caso da indígena Ysani Kalapalo, que fez parte da comitiva brasileira na última Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro do ano passado. Veja uma das postagens dela:

Defesas
A Associação dos Servidores Ambientais Federais (Ascema) divulgou nota em nome dos agentes do Ibama que participaram da ação em Roraima.

“Nós, servidores do Ibama, viemos a público lamentar o falecimento do madeireiro que ocorreu durante o atendimento a uma denúncia de desmatamento ilegal. Embora o combate a tais crimes seja de vital importância para o Brasil, não desejamos que a Amazônia se transforme numa zona de guerra”, diz o texto, para em seguida atacar o uso político do caso:

“Contudo, em virtude das atuais políticas públicas para a região, apoiadas pelo discurso do governo federal contra as instituições que têm o dever constitucional de preservar o meio ambiente, aliadas à incitação por políticos locais ao cometimento de crimes ambientais, há crescente acirramento da tensão em toda a região, aumentando a agressividade dos conflitos.”

De acordo com a nota dos servidores, assim como na versão oficial do Ibama, os PMs que participaram da ação responderam após serem recebidos a tiros. “Nós nos solidarizamos com os familiares e amigos da vítima fatal, assim como com toda a população de Rorainópolis e somos totalmente favoráveis à investigação dos fatos que terminaram de forma trágica”, diz o comunicado dos servidores.

Para o Ibama, o caso está sendo inflamado por notícias falsas. “As características observadas no local indicam emprego de maquinário de grande porte no desmatamento e há indícios de que madeireiras da região ofereciam suporte para os ilícitos ambientais”, informou o órgão.

Desde a morte, no fim de janeiro, não houve mais nenhuma ação do Ibama contra o desmatamento ilegal em Roraima.

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