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Enviados especiais a São Bernardo do Campo (SP) – Após confirmar que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desistiu de fazer seu discurso em cima do caminhão de som estacionado às portas do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, lideranças petistas revelaram ao Metrópoles que a medida faz parte da estratégia da defesa. O berço do sindicalismo em São Paulo foi fornecido por Lula como endereço residencial em alguns processos judiciais. Visto que a polícia não pode entrar em domicílios após 18h, ao evitar deixar o prédio, o político estaria, consequentemente, livre da prisão nesta sexta-feira (6/4).

Segundo fontes do partido, ao abster-se de fazer um discurso público que pudesse insuflar a multidão concentrada ao redor do prédio a resistir à iminente prisão do líder petista, a defesa espera ganhar pontos para que Lula se entregue posteriormente, em data negociada, à Polícia Federal. No acordo, também estaria sendo tratada a transferência do ex-presidente para Curitiba em voo fretado, em vez de no avião da PF que já transportou outros réus da Operação Lava Jato. Assim, a ordem de execução da pena seria cumprida, sem, contudo, dobrar Lula e o PT à vontade do juiz Sérgio Moro, autor da determinação – e, de quebra, separando-o do rol de políticos investigados.

Mesmo sem anunciar oficialmente a estratégia, o PT já dispara nacionalmente à militância aviso de que, na manhã deste sábado (7), será celebrada, dentro da sede da entidade sindical, missa em memória da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva. O informe confirma a presença de Lula no ato religioso.

A informação de que o político não discursaria nesta tarde foi dada por líderes do PT quase uma hora após o fim do prazo estipulado pelo juiz federal para Lula apresentar-se voluntariamente à PF. Do lado de fora do prédio do Sindicato dos Metalúrgicos, milhares de pessoas aguardavam as palavras do petista, que estavam previstas, inicialmente, para as 16h.

Os apoiadores de Lula se aglomeraram sob o sol, ao longo do dia, para manter uma barreira em frente ao edifício. É o caso da professora Marina Inês do Nascimento, que deixou a mãe em um hospital, onde está internada após um acidente vascular cerebral, para dar apoio ao líder petista. “Ela era da luta e sempre reconheceu que o povo pobre precisa lutar. Estou aqui pela minha mãe e pelo povo negro, que ajudou a construir a democracia que estão querendo destruir”, disse, com lágrimas nos olhos. Segundo Marina, a mãe dela, aos 86 anos, não tem chances de recuperação, na avaliação dos médicos.

Revezando-se entre os oradores que falaram à multidão, os deputados federais Vicentinho (PT-SP), Luiza Erundina (PSol-SP) e Paulo Pimenta (PT-RS), e a senadora Gleisi Hoffmann (PR), presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, entre outros. Todos defenderam a inocência do ex-presidente. A cada vez que o juiz federal Sérgio Moro e o Supremo Tribunal Federal eram mencionados, muitas vaias e xingamentos.

Dentro do sindicato, ao longo da tarde, Lula conversou com religiosos e artistas, como a cantora Leci Brandão e o rapper Taíde. Na sala, a cúpula do PT anunciou a Lula a decisão dos sindicatos e movimentos sociais de manter a resistência à prisão decretada pelo juiz federal Sérgio Moro, que deu prazo até as 17h desta sexta para o ex-presidente se entregar.

Ex-ministro à frente das negociações
O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo tem sido um dos aliados do ex-presidente a negociar os termos da prisão com a Polícia Federal. Desde as primeiras horas do dia, Cardozo tem mantido contato com o Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da PF, unidade designada para fazer a detenção de Lula.