STJ rejeita transferir investigação sobre caso Marielle para a PF
A relatora Laurita Vaz acatou argumentos da família da vereadora, que teme interferências do governo nas apurações

A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STF) decidiu, por unanimidade, no início da noite desta quarta-feira (27/05), rejeitar o pedido de transferência das investigações dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes para a esfera federal.
A relatora do caso, ministra Laurita Vaz, votou contrariamente ao pedido e foi acompanhada por outros oito ministros da Corte.
O pedido foi feito pela ex-procuradora-geral da República Raquel Dodge, como um de seus últimos atos antes de deixar o cargo, no ano passado.
Laurita Vaz acatou os argumentos da família da vereadora, que teme interferências do governo nas investigações que cairiam nas mãos da Polícia Federal.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesPara a ministra, a falta de uma solução para o crime, no sentido de se chegar aos mandantes, não representa significa incapacidade das instituições estaduais. “Constata-se notório empenho da equipe de policiais civis e do grupo do Ministério Público estadual”, disse a ministra. O pretendido deslocamento das investigações acarretaria efeito contrário. Traria mais atraso”, argumentou a ministra.
“Basta uma breve leitura para se constatar que não há conivência ou imobilidade das autoridades locais na apuração de crimes praticados por milicianos“, completou. Para ela, a federalização pode “frustrar os resultados perseguidos”.
“O contexto sugere que o trabalho investigatório das autoridades locais não está sendo obstado pela atuação desses grupos, nem está limitado para quem quer que seja”,
Marielle foi morta há dois anos e dois meses, com tiros de fuzil, em um atentado que ocorreu na região central da capital fluminense. O crime ocorreu em 14 de março de 2018. Apesar de a polícia já ter chegado nos possíveis executores do crime, que também vitimou o motorista Anderson Gomes, ainda não foram identificados os mandantes nem quais os motivos do assassinato.
“Necropolítica”
Acompanharam o voto da relatora os ministros Jorge Mussi, Sebastião Reis, Rogério Schietti, Reynaldo Fonseca, Ribeiro Dantas, Antonio Saldanha Palheiro e Joel Ilan Paciornik. Estava ausente da sessão o ministro Félix Fischer.
O ministro Rogério Schietti disse que as instituições não demonstraram “fraqueza” para investigar os mandantes e fez críticas aos que ainda reverberam um discurso de “ódio e de intolerância”. Chegou a usar o termo “necropolítica” em sua argumentação e citou o assassinato do menino João Pedro, ocorrido na semana passada em uma operação conjunta, da PF e da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em São Gonçalo, regiãometropolitana da capital fluminense.
“Parece não constranger os que reverberam discursos de ódio e de intolerância, os quais acabam por desenvolver uma espécie de necropolítica, segundo a qual, escolhe-se quem pode viver e quem deve morrer. E silencia aqueles que denunciam a morte de civis por outros civis, fardados ou não”, disse o ministro.
“O caso Marielle Franco é evidência cabal que ainda no Brasil ainda continuamos a vivenciar o assassinato de pessoas que somadas a tantos milhares de incógnitos brasileiros nas estatísticas de homicídios e feminicídios e arriscam a defender minorias e a cobrar das autoridades políticas atitudes mais ousadas e eficazes no enfrentamento das cotidianas violações a direitos da população, especialmente da periferia dos grandes centros urbanos”, disse.
Família
A viuva da vereadora comentou o voto de Schietti nas redes sociais e se disse emocionada.
Ministro Rogério Schietti acaba de fundamentar seu voto pela #FederalizaçãoNão usando o termo Feminicidio Político, conceito cunhado por nossa aguerrida deputada @renatasouzario. Belíssimo voto. Emocionante.
— Monica Benicio (@monica_benicio) May 27, 2020
A família da vereadora comemorou o resultado e disse que não descansará enquanto os mandantes do crime não forem encontrados.
Vencer esta etapa foi mt importante, mas não descansaremos até sabermos quem mandou matar Marielle e por quê. Assim como hj, nestes 2 anos anos estivemos juntas e juntos. E não pode ser diferente! Se cadastre para receber como apoiar os próximos passos: https://t.co/bgtFy5DYFi
— Instituto Marielle Franco (@inst_marielle) May 27, 2020



































