MPF investigará suposto favorecimento de Michelle a amigos na Caixa

Tema será incluído no inquérito da Procuradoria da República do DF que apura irregularidades na Caixa Econômica

atualizado 01/10/2021 17:35

Clauber Cleber Caetano/PR - 08/06/2020

O Ministério Público Federal (MPF), por intermédio da Procuradoria da República no Distrito Federal (PRDF), irá abrir investigação para apurar suposto favorecimento da primeira-dama Michelle Bolsonaro a empresas de amigos no programa de créditos de emergência ofertados pela Caixa Econômica Federal na pandemia.

A informação foi confirmada ao Metrópoles pela assessoria de imprensa da PRDF. Segundo o órgão, o “tema será incluso no inquérito que apura as irregularidades na Caixa Econômica”.

A inclusão da denúncia na investigação em curso decorre de revelação trazida em reportagem da revista Crusoé, que revelou mensagens nas quais o gabinete de Michelle teria pedido para que o banco incluísse no programa de concessão de crédito empresas de aliados bolsonaristas e pessoas próximas à família presidencial.

O gabinete da primeira-dama registrou as demandas por e-mail. Os assessores de Michelle teriam atuado como despachantes para facilitar a aprovação das empresas no programa. Em uma ocasião, Michelle Bolsonaro chegou a falar sobre o assunto com o presidente da Caixa, Pedro Guimarães.

“A pedido da sra. Michelle Bolsonaro e conforme conversa telefônica entre ela e o presidente Pedro, encaminhamos os documentos dos microempresários de Brasília que têm buscado crédito a juros baixos”, dizia um e-mail enviado pela assessora especial da Presidência à Caixa.

A operação foi detectada pelo sistema de controle do próprio banco, e uma apuração interna foi aberta. Após Guimarães encaminhar as demandas da primeira-dama a uma agência de Taguatinga, praticamente todas foram atendidas.

Entre os contemplados pelo programa, estão o florista que atende Michelle, a confeiteira que fornece doces e bolos para festas no Palácio do Planalto, a cabeleireira da primeira-dama e um promoter que organiza recepções para os integrantes da Corte brasiliense. Marcas de roupa que foram divulgadas pela família do presidente nas redes sociais também estão na lista.

No sistema da agência onde os pedidos foram submetidos, havia até uma pasta com o título “Indicações”. Lá, estavam todos os pedidos enviados pelas instâncias superiores do banco a partir da demanda da primeira-dama.

O que chamou atenção da auditoria foi o fluxo dos processos, que foi de cima a baixo até serem aprovados.

Um dos aprovados, por exemplo, é o salão Luiza Coiffeur. “O contato com a primeira-dama foi fundamental. É o famoso QI (quem indica) que fala, não é!? Foi uma parceria com a primeira-dama, ela que deu a força final. Foi a Maria Amélia, amiga da gente, que conseguiu com a primeira-dama. Precisei ir uma vez só na Caixa. Foi fácil conseguir”, diz Waldemar Caetano Filho, sócio do salão. A Maria Amélia a quem se refere é uma confeiteira amiga próxima da família do presidente. Sua confeitaria recebeu um empréstimo de R$ 518 mil da Caixa.

Outra indicação da primeira-dama foi o florista Rodrigo Resende, dono de uma tradicional floricultura de Brasília, além da loja de ropas Derela Modas, que tem parceria com Michelle, segundo funcionários. A rede de óticas de Márcia Barros de Matos; a sócia de um brechó de uma assessora da ministra Damares, Márcia Barros; e o dono de uma empresa de eventos com sede no Clube do Exército de Brasília, Robson Lemos, também estão na lista VIP.

Todos os citados foram contatados e negaram acusações de terem recebido tratamento preferencial.

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Caixa nega irregularidades

Em nota à reportagem da Crusoé, a Caixa Econômica Federal negou que qualquer irregularidade tenha sido cometida no processo de aprovação dos pedidos: “A Caixa informa que a concessão de crédito em todas as suas linhas passa por rigoroso processo de governança, compliance e análise de riscos independente”.

Veja a nota na íntegra:

“A Caixa informa que a concessão de crédito em todas as suas linhas passa por rigoroso processo de governança, compliance e análise de riscos independente. No caso do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, anteriormente à análise de crédito dos bancos operadores do programa, há uma avaliação de enquadramento por parte da Receita Federal, que notifica as empresas validadas. Apenas as empresas indicadas e munidas de aprovação pela Receita Federal passam pelo rito de governança da Caixa quando da solicitação do crédito, o que inclui análise por sistema de riscos, em um processo totalmente automatizado e sem interação humana. Ao todo, foram concedidos mais de 22 bilhões de reais pelo Pronampe a mais de 240 mil micro e pequenas empresas. Ademais, na condição de banco público, a Caixa recebe, por meio de sua área de Relacionamento Institucional, solicitações como dúvidas e consultas acerca de seus produtos e serviços, que são encaminhadas para avaliação técnica e impessoal pelas áreas negociais e posterior retorno diretamente aos clientes”.

Já o gabinete da primeira-dama não se pronunciou.

Após a publição da reportagem, a Caixa entrou em contato com o Metrópoles e enviou a seguinte nota:

A CAIXA informa que a concessão de crédito para empresas no âmbito do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (PRONAMPE) exige obrigatório enquadramento prévio pela Receita Federal do Brasil, de onde advém, portanto, a lista de empresas que podem ser analisadas.

A partir da lista da Receita Federal, a CAIXA submete as empresas ao seu rigoroso processo de governança, compliance e análise de riscos.

O rito de análise de riscos na CAIXA ocorre mediante processo totalmente automatizado, independente e sem interação humana.

A CAIXA concedeu mais de R$ 22 bilhões de empréstimos pelo PRONAMPE, para mais de 240 mil Micro e Pequenas Empresas (MPE), todos eles obedecendo ao mesmo rito interno.

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