Enviadas especiais a Goiânia (GO) – Após mais de quatro horas de interrogatório, o médium João de Deus deixou a Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic) pouco depois das 22h deste domingo (16/12). Seguiu para o Instituto Médico Legal (IML), para exame de corpo de delito, e depois, para o Núcleo de Custódia do Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia (GO), onde deu entrada às 22h55 e passará a noite.

Segundo informações da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP-GO), o líder espiritual ficará em uma cela de 16 m² com outros três presos. A previsão inicial era de que ficasse isolado, devido a sua idade (76 anos) e natureza sexual das acusações que lhe levaram à prisão: ele teria abusado de centenas de mulheres, brasileiras e estrangeiras, durante atendimentos espirituais.

De acordo com o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, o médium não confessou ter cometido os crimes. “Ele apresentou a versão dele para cada um dos casos”, contou. Os investigadores questionaram João de Deus sobre as denúncias de 15 mulheres que registraram ocorrência e prestaram depoimento na Deic. A transcrição do interrogatório preencheu sete páginas.

O líder espiritual deve ser ouvido novamente pelas autoridades nesta segunda (17). Seus defensores, que consideram a prisão injustificada, pretendem impetrar um pedido de habeas corpus, também nesta segunda, para liberá-lo ou, ao menos, conseguirem a conversão da detenção preventiva para o regime domiciliar.

Confira imagens do momento que João de Deus deixou a delegacia:

Ao deixar o prédio da Deic, o advogado de defesa de João de Deus, Alberto Toron, voltou a pedir cautela na apuração dos casos. “Soa estranho que uma mulher que se diga violentada volte tantas vezes para o atendimento. É preciso que se julgue antes de qualquer condenação”, disse. Toron afirmou que o médium negou as denúncias.

Encruzilhada
Por volta das 16h30 deste domingo, João de Deus se entregou às autoridades goianas. A defesa do médium negociava a rendição dele com a Polícia Civil de Goiás desde sexta-feira (14), quando a Justiça do estado expediu mandado de prisão preventiva.

A apresentação do líder espírita à polícia ocorreu numa encruzilhada de uma estrada de terra na BR-060, na zona rural de Abadiânia (GO) – João de Deus teria passado os últimos dias em um sítio na região. Foram ao encontro do médium o delegado-titular da Deic, Valdemir Pereira da Silva, e o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes.

Os policiais chegaram ao local marcado para a rendição em três carros e o acusado, no veículo do advogado Alberto Toron, responsável por negociar a rendição com o delegado-geral da Polícia Civil. João de Deus não foi algemado. O trajeto de 90km – de Alexânia até a capital goiana – durou cerca de uma hora. João de Deus não falou com a imprensa ao chegar ao prédio da Deic, às 17h55.

Mais de 300 vítimas
A partir das primeiras denúncias, reveladas no último dia 12 no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, mulheres do Distrito Federal e mais 13 estados brasileiros, e de seis países, começaram a entrar em contato com o Ministério Público de Goiás. De lá para cá, os promotores colheram 335 relatos de situações nas quais o médium teria se aproveitado da confiança depositada pelas seguidoras para molestá-las e estuprá-las. Após revelarem os casos, as denunciantes passaram a ser atacadas nas redes sociais.

Colaborou Gabriella Furquim